Praia na montanha

Costumo dizer que Belo Horizonte melhorou muito depois que me mudei de lá, fez agora 42 anos, e não há nisso uma inverdade. Nem minha mãe, se viva fosse, diria o contrário. Tampouco meu pai, ambientalista que nessas quatro décadas ajudou a cidade a se colorir de verde. Quando vim para São Paulo, os dois foram me levar à sórdida rodoviária de então, onde me esperava um ônibus da Cometa para dez horas de estrada ruim. Viagem bem menos confortável do que a que fez Otto Lara Resende quando, em janeiro de 1946, se mandou para o Rio de Janeiro. De mala, cuia e bigodinho, o Otto saiu pelo aeroporto da Pampulha, num daqueles DC-3 veteranos de guerra.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h01

Sou tão antigo que cheguei a voar num desses, na minha estreia aeroviária, aos 5 anos de idade. Na pista, o avião se assentava sobre as rodas traseiras, como um cachorro, focinho rombudo a farejar as nuvens. Entrava-se por uma portinhola junto à cauda, e dentro se avançava por um plano inclinado entre as fileiras - uma poltrona de um lado, duas do outro, e estávamos conversados. Não sei se ali cabiam 20 passageiros. Mas me lembro que a aeromoça (quase escrevo enfermeira), como então se chamava a comissária, distribuía pastilhas e chumaços de algodão para proteger os ouvidos da pressão e do fragor dos motores. Os sacos para enjoo raramente jaziam ociosos na bolsa à frente do passageiro.

Aviãozinho espartano, aquele DC-3 em que o Otto bateu asas, mas ainda assim preferível, 24 anos mais tarde, às trepidantes viaturas da Cometa. Quando perguntei por que tinha deixado Belzonte, ele fez graça, respondeu que não sabia: talvez o preço da passagem da Panair, 220 cruzeiros. Não sei quanto meus pais pagaram para me embarcar naquele ônibus, mas não esqueço o abafamento moral e a falta de horizontes que me expeliram de minha cidade. O panorama hoje é outro. Vai ver que era eu que estava atrapalhando.

O que importa é que aos poucos me reconciliei com Beagá, aonde tenho ido com insistência e assumido prazer. Amigos meus que moram lá dizem que é porque chego com a passagem de volta. Pode ser. Um motivo a mais para não "regredir a Minas", como dizia ter feito o jornalista, escritor e minerador de talentos literários João Etienne Filho, um que saiu, ricocheteou no Rio e voltou. "Eu não mereço", disse o Otto quando nos anos 80 grassou um sarampão sentimental em favor do retorno de nativos ilustres às Gerais. Como ainda não me ofereceram o governo estadual, vou ficando onde estou. Se oferecerem, aí é que não vou mesmo. Em todo caso, já cansei amigos e desafetos com a declaração de que sou mineiro não-praticante.

Serei mesmo? A frequência com que tenho escrito sobre a minha terra vai desmoralizando o rótulo que galhofeiramente pespeguei em mim. Ando mais praticante do que muitos lá encastoados. Há 20 anos fiz um livro inteiro, agora reeditado com cara nova, O desatino da rapaziada, sobre coestaduanos meus igualmente dados a escrever. E hora dessas ainda me animo a desovar mais um, esse exclusivamente sobre Belo Horizonte e que deverá chamar-se Praia de mineiro. Inadimplente literário, daqui aviso a meu editor que já está tudo apurado, faltando apenas escrever. E, a menos que eu seja incompetente a ponto de malbaratar um bom assunto, daí pode sair coisa divertida. A começar por essa obsessão marítima dos mineiros, inconformados que somos com nossa condição - maldição? - mediterrânea.

"Dizem que Minas já teve mar", escreveu Betinho, o sociólogo Herbert de Souza, que era mineiro de Bocaiúva. "O lugar está lá, só falta a água." Que falte, deu de ombros a moçada que num dia de 1977 decidiu dotar de praia o bairro belo-horizontino do Prado. Sim, uma praia na montanha. "Das construções vizinhas, eles trouxeram areia e de suas casas, baldes de água", relatou a Veja. "Em pouco tempo o local estava tomado por moças e rapazes com roupas de banho, óculos escuros, bronzeadores e guarda-sóis." Durou pouco, mas permaneceu como um feito - talvez inédito: que outra cidade pode se orgulhar de uma ex-praia?

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