Praça de BH vira espaço cultural

Tradicional local de manifestações políticas da capital mineira agora abriga complexo de espaços para atividades científicas e de lazer

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE, O Estadao de S.Paulo

22 Março 2010 | 00h00

Conjunto arquitetônico que retrata a evolução de Belo Horizonte, a Praça da Liberdade começa a adquirir nova funcionalidade. Tradicional centro do poder e das manifestações políticas desde a fundação da nova capital mineira, em 1897, o local agora abriga um complexo de espaços voltados para atividades culturais, científicas e de lazer. Com a construção da Cidade Administrativa - a imponente sede da administração direta e indireta do Estado, erguida na região norte da cidade e inaugurada no início do mês -, os imóveis públicos que antes abrigavam secretarias e boa parte da burocracia estadual passaram por reformas, restaurações e readequações.

Na praça, prédios centenários convivem com outros contemporâneos, numa travessia arquitetônica que tem início no fim do século 19, quando imperava o estilo neoclássico, passa pela art déco (na década de 1940), o modernismo de Oscar Niemeyer - nos anos 50 e 60 - e o pós-moderno, no fim de década de 1980.

Com a temática do século 21, os dois primeiros espaços foram concluídos e inaugurados na semana passada. Patrocinado por uma empresa de telefonia móvel, o espaço UFMG do Conhecimento abriga um observatório astronômico e um planetário de última geração. A fachada futurista, coberta com um vidro especial, permite que o prédio se transforme num telão para o público na praça.

Para a arquiteta Jô Vasconcelos, responsável pelo espaço UFMG do Conhecimento e coordenadora-geral do circuito, as novas atrações vêm sanar em parte a carência de espaços culturais na capital. "Somos os reis do botequim", ressalta. Como a praça é considerada uma síntese da cidade e suas etapas, Jô acredita que o projeto não poderia fugir ao momento atual. "Todos os equipamentos culturais vão ter bastante tecnologia, interatividade e elementos virtuais."

O designer Marcello Dantas lembra que os museus mudaram. "Eram armarinhos de guardar coisas, coleções. Há uma mudança na linguagem dos museus. Isso significa que eles têm de falar a linguagem do tempo em que estão inseridos."

Até o início de 2011, o circuito ganhará cinco espaços de cultura e lazer, que irão se somar a outros imóveis que já têm destinação pública, como a Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, o Museu Mineiro, o Arquivo Público Mineiro e a Rainha da Sucata - obra pós-moderna, onde funciona a sede do Circuito Cultural.

O investimento chega a R$ 100 milhões, totalmente custeado pelas empresas privadas e estatais. O governo mineiro desembolsou R$ 6 milhões, por meio da Cemig, para a criação do Centro de Arte Popular. O centro e o Memorial Minas Gerais - patrocinado pela Vale - serão inaugurados no segundo semestre. O último espaço a ser entregue será o Centro Cultural Banco do Brasil, no prédio da antiga Secretaria de Estado de Defesa Social.

A proposta para o prédio da antiga Secretaria da Fazenda é utilizar recursos virtuais para acomodar no mesmo espaço a riqueza cultural do Estado, desde o século19 até o cenário contemporâneo, incluindo uma perspectiva futurista. Responsável pelo projeto museográfico, o designer Gringo Cardia espera que o edifício seja "um ponto de encontro social", com espaços gratuitos para acesso à internet e sala de leitura. "A ideia é que esse prédio seja uma extensão da rua."

O Palácio da Liberdade, antiga sede do governo, foi reformado e será a única edificação com resquícios da fase política. O local, aberto à visitação no último domingo de cada mês, serve como espaço de recepção do governador a autoridades.

PARA LEMBRAR

Possível risco ao patrimônio gerou ações

O governo mineiro considera que o circuito na Praça da Liberdade favorece a preservação do patrimônio histórico, com o argumento de que o uso indevido das instalações construídas no fim do século 19 e início do século 20 causou danos ao acervo. Mas as intervenções foram alvo de ações do Ministério Público Estadual (MPE). Em julho de 2007, a Justiça do Estado acatou recurso do MPE e suspendeu o início das obras no prédio da antiga Secretaria da Fazenda. Para os promotores, as intervenções descaracterizariam o prédio, tombado em nível estadual e municipal.

O governo mineiro afirmou que as obras no circuito da Praça da Liberdade são cuidadosamente "acompanhadas pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha)". /E.K.

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