Postos retrô que resistem na região central de SP

Antigas construções para reabastecimento de carros guardam arquitetura propagada pelo interior dos EUA, traços da São Paulo dos anos 1920. Só duas delas seguem de pé

RODRIGO BURGARELLI , O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2011 | 03h03

A cozinheira Carmen Helena da Silva, de 48 anos, trocou o Rio de Janeiro por um posto abandonado na Avenida Tiradentes, na região central de São Paulo. Não se trata de um posto qualquer. A carioca vive com o marido em um quarto e sala improvisado no posto mais antigo da capital, construído em 1926 em um estilo inconfundível, que praticamente já desapareceu da cidade com mais carros e motos - e, portanto, postos de combustível - do País.

Além do Auto Posto Alferes, localizado do lado da Estação Armênia do Metrô, há apenas mais um posto de gasolina da mesma época ainda de pé na metrópole. Trata-se do Auto Posto Dansa, que fica na esquina da Rua Pires da Mota com a Avenida da Aclimação, também na região central. Ele foi erguido em 1929 e continua firme, funcionando regularmente sob a bandeira da Shell - a mesma empresa que espalhou postos no estilo "missões" pela São Paulo da década de 1920.

Esse tipo de arquitetura, revisitada pela Expedição Metrópole, é baseada nas construções espanholas comuns em cidades do México e dos Estados Unidos. Como o Texas era um dos principais centros petrolíferos da época, o estilo de frontões arredondados e largas e espaçadas colunas se propagou pelo mundo por meio dos postos de gasolina - e fez sucesso também no cinema.

"São Paulo tinha dezenas nesse modelo, mas eles foram sendo demolidos ao longo dos anos. É uma pena que hoje existam apenas dois na capital", diz o fotógrafo Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga.

No postinho da Aclimação, ainda é possível ver um painel de azulejos com uma concha azul e a inscrição da "Anglo Mexican Petroleum Company Limited", o nome antigo da Shell, no topo do frontão. No da Avenida Tiradentes, o mesmo espaço está vazio e encoberto pela tinta descascada que dá um ar de abandono ao local. "Esse posto fechou há três anos, mas meu marido já mora aqui desde 2001, como ajudante do proprietário", explica a carioca Carmen.

Ela conta que, antes do fechamento, eles moravam em um pequeno cubículo nos fundos do estabelecimento. Desde então, se mudaram e fizeram da antiga loja de conveniência uma casa de verdade, com móveis, cozinha e até um cachorro de estimação. "O dono pediu que a gente ficasse para impedir invasão de sem-teto", afirma.

A carioca diz que adora morar ali porque o posto "é lindo", mas que tem medo da violência da região. "Todo dia, por volta das cinco da tarde, um grupo de mendigos se reúne na praça aí na frente. Sempre tem briga e, da última vez, teve até gente morta. Não dá para ficar com a porta destrancada."

Demolição. Em junho deste ano, o terceiro posto mais antigo da cidade foi demolido. Construído em 1931 no mesmo estilo "missões", o Auto Posto Belo Car ficava na Rua do Glicério, também no centro. Segundo moradores, o posto já não funcionava há alguns anos e o terreno vazio é hoje usado pelo dono como um estacionamento para uma feira livre montada ali todo domingo.

"É um pecado. Não sei nem como deixaram demolir esse patrimônio sem igual na cidade", reclama o comerciante Martino Selano, de 61 anos.

Para impedir que o mesmo aconteça com o posto da Avenida Tiradentes, especialistas e aficionados pelos prédios históricos de São Paulo querem pedir o tombamento da construção.

"Como ele está fechado há algum tempo, temos medo de que o dono vá demoli-lo. Não podemos correr esse risco", afirma Nascimento.

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