Clayton de Souza/AE
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Porsches, BMWs e Camaros brancos ganham as ruas

Branco vira tendência, mas, para carros de passeio, ainda há preconceito

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

O universitário Pedro Alcântara Martins, de 21 anos, não se importa quando amigos o provocam, dizendo que seu Porsche Cayenne branco "parece carro de jogador de futebol". "Para mim, é a cor mais bonita", diz, imperturbável. Quando foi à concessionária comprar o carro, que custa cerca de R$ 500 mil, havia um preto disponível. Por ironia do destino, o branco agora virou "tendência" - e os amigos de Alcântara, diz ele, "ainda vão ter um".

Mas a moda é elitista - só "veste" bem carrões. Entre os menores, de passeio, pode haver confusão com táxis. "Isso é coisa de pobre", acha o presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo, Natalício Bezerra Silva, de 71 anos. "Rico que é rico compra da cor que quiser e não se incomoda com os outros."

A dentista Marina Ribas, de 43, dona de um Fiat Stillo branco, acredita que a portaria que determina a faixa lateral quadriculada amarela e preta nos táxis não vai fazê-la se sentir menos "taxista". "As pessoas vão continuar acenando para o meu carro. A faixa é um detalhe. O resto do carro continua da mesma cor."

Para ela, o preconceito contra o carro branco não vai diminuir. "Quando comprei esse carro, queria preto. Levei o branco, porque era o que estava disponível. Mas não ligo para isso. Carro só serve para carregar a gente."

Pedro Alcântara e os outros proprietários de Porsches, BMWs, Mercedes, Land Rovers e outros modelos de luxo (premium, esportivos caros e SUVs) não correm o mesmo risco de confusão. O mercado diz que o branco, nesses carros, longe de banalizar ou igualar, destaca seu porte, suas linhas, sua grife.

Especialistas afirmam que a cor alude ao futuro, à ecologia, ao politicamente correto. O branco do carrão seria um sinal de engajamento AAA em um mundo poluído. "A gente não pode esquecer que o branco reflete o calor, não o absorve, como o preto", diz a gerente de cores e acabamentos da GM, Cristina Belatto. Isso é vendido como fator positivo em um momento de aquecimento do planeta.

Na Hyundai, explicam que o branco do carrão é diferente do que se disponibiliza nos menores. Modelos como Santa Fé e Vera Cruz, que têm um padrão luxo, levam mais camadas de tinta e recebem acabamento perolizado.

A julgar pelos números, os marqueteiros acertaram na mensagem. A BMW registrou um aumento da procura da cor branca: foi de 3%, em 2007, para 45%, em 2011. Cláudio Lima, vendedor em uma concessionária Mitsubishi, diz que a espera por um Pajero Full branco pode chegar a 120 dias.

Rodrigo Fioco, do marketing da GM, conta que há até dois anos o branco não era uma cor disponível para o Captiva; hoje, já representa 30% das vendas por mês. "Estamos ajustando a produção de unidades brancas à demanda do mercado."

Fila. O empresário Nasib Rabah, de 41 anos, há dois meses proprietário de um Camaro branco, diz que já há uma fila de pretendentes de olho no carro. "Como eu havia encomendado dois, estou esperando o segundo chegar para vender bem o primeiro."

Segundo Rabah, que viaja muito a trabalho, o branco é "uma tendência mundial". "Estive no Líbano há pouco, só dá branco. Nos Estados Unidos, se você vai nas grandes cidades, os carrões são todos brancos."

À saída do estacionamento bem fornido do Shopping Cidade Jardim, Pedro Alcântara acelera orgulhoso seu Cayenne e diz: "O branco chama mais atenção". Ao que tudo indica, os carrões deixaram para trás o tempo em que os consumidores que podem pagar meio milhão de reais por um automóvel queriam a discrição de uma cor sóbria.

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