Por três vezes família tentou fugir do nazismo

   

, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

 

 

 

A trajetória dos Dublons mostra como a família - a exemplo de outras milhares - tentou fugir, sem sucesso, do turbilhão que os tragou: o nazismo. Por três vezes, Otto Willy e Erna Dora, os pais, e as filhas Lore e Eva tentaram achar um lugar seguro em um mundo que lhes negava passaporte.

Em 1.º de janeiro de 1939, os Dublons deixaram Erfurt, capital do Estado alemão da Turíngia e terra natal de Lore. Os nazistas estavam no poder havia seis anos. A decisão de buscar refúgio na Bélgica foi tomada dois meses após a Kristallnacht (a Noite dos Cristais), que deixara 1,6 mil sinagogas incendiadas na Alemanha e um saldo de 30 mil judeus levados a campos de concentração.

Mas a Bélgica não era ainda suficientemente segura. Em 13 de maio de 1939, os Dublons embarcaram no navio Saint Louis, rumo a Cuba. A travessia do Atlântico ficaria conhecida como a "viagem dos malditos". Chegando em Havana, só 28 pessoas puderam desembarcar - 909 judeus foram impedidos de deixar o navio pelo governo cubano, que alegava documentação irregular. Com cotas restritas para receber imigrantes, os Estados Unidos também os recusaram.

 

De volta à Bélgica, os Dublons se estabeleceram em Anderlecht, um distrito de Bruxelas. Em maio de 1940, "como todos os vizinhos", fizeram as malas e colocaram o pé na estrada, acompanhando a retirada dos exércitos belga, francês e britânico em direção ao norte da França. Acossados pelos panzers alemães que invadiam o país, rumavam em direção ao porto de Dunquerque em busca de navios que os levassem à Inglaterra.

O que para os ingleses foi um feito militar que salvou sua pátria - 330 mil soldados foram retirados diante do cerco alemão -, no diário de Lore é o drama das multidões anônimas de refugiados. Deixados para trás, eles acabaram submersos na maré nazista. Lore descreve as estradas "pretas de gente" e as bombas que caíam "interminavelmente". Fala da vida nos porões, onde só havia "ovos duros e chocolate" para comer.

"A guerra seguia a espreitá-los e não podiam escapar dela, como se fugissem de um destino inevitável", afirmou o historiador Xosé Manuel Nuñez Seixas, professor da Universidade de Santiago de Compostela. "O documento diz muito sobre a forma como os mais inocentes perceberam o que ocorria ao redor e interpretaram o sofrimento coletivo."

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