Por trás dos pedidos, medo de assalto

Além de cancelas e guaritas, moradores das zonas sul e oeste usam floreiras, portões e placas falsas de 'sem saída' e 'só tráfego local'

O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h04

O medo de assaltos é o motivo número 1 citado pelas associações de bairros que defendem o fechamento de ruas com cancelas e guaritas. Outras razões apontadas são ajudar a evitar o avanço de prédios e de condomínios fechados de casas.

"É até uma forma de proteger a cidade contra a verticalização, pois nenhuma construtora tenta comprar casas em ruas fechadas. Eles sabem que é mais difícil conseguir a desapropriação nesses casos", defende Plinio Campos Bianchini, de 42 anos, empresário e morador da Rua Carlo Rainaldi, no Alto da Boa Vista, bairro nobre da zona sul.

A Carlo Rainaldi foi fechada com portões de ferro de mais de dois metros de altura. Dos dois lados da via, há saídas vigiadas por guaritas e câmeras. A passagem de pedestres é permitida só durante o dia. Segundo moradores, as casas dessa rua - algumas avaliadas em R$ 3 milhões - têm preços até 40% superiores a outras de mesmo padrão localizadas em vias abertas do bairro.

"Moramos ao lado da Marginal do Pinheiros, então é um bairro que facilita a fuga dos ladrões. Tivemos dezenas de assaltos, com famílias que ficaram reféns de bandidos e acabaram vendendo a casa para morar em prédio. O medo vai acuando as pessoas e é dessa forma que os bairros de casas vão acabando em São Paulo", diz a arquiteta Lucimara Ferreira, de 36 anos, moradora de outra via fechada com cancelas - a Avenida Luís Martins de Araújo, também no Alto da Boa Vista.

A avenida tem saída para os dois lados, mas os moradores colocaram uma placa de "sem saída" e outra que diz "permitido só tráfego local". Na entrada, há uma guarita onde ficam dois vigias. Ali perto, a Rua Canumá também teve uma de suas saídas fechada por um portão de ferro. Com isso, os moradores transformaram um trecho da via em praça e horta comunitária.

Morador do Alto da Boa Vista há 24 anos e com casa em rua aberta, o advogado Alberto Fagundes Puga, de 58, acha o fechamento de ruas com cancela "uma agressão". Ele defende a instalação de floreiras que apenas limitem a entrada de carros. "Quem quer fechar rua no meio de um bairro residencial que vá morar em condomínio fechado, longe da cidade", critica o advogado.

No Alto de Pinheiros, moradores também usaram um "disfarce" com floreiras para fechar a Rua Visconde de Maracaju, aberta dos dois lados e sem nenhuma casa. A rua virou uma pracinha particular do prédio vizinho, cheia de árvores e com bancos. No Alto de Pinheiros, a reportagem também constatou o fechamento com cancelas da Rua Itapicura, uma via com cerca de 200 metros e saída dos dois lados.

"Quase todo morador antigo aqui já sofreu assalto. Quem está em casa de rua aberta chega com medo à noite todo dia. Todo mundo no bairro quer fechar sua rua, só quem não conseguiu autorização é que critica", afirma a procuradora Vitoria Ferraz, de 52 anos, nascida e criada no Alto de Pinheiros.

Fumódromo. Localizada na região mais movimentada de bares e baladas da cidade, no meio da Vila Madalena, a Luís Anhaia é uma das poucas ruas que conservam casas antigas de bairro, construídas na década de 1950. Mas, com um fundo que sai no Bar Empanadas, na Rua Wisard, e a outra saída colada ao Bar Salve Jorge, na Rua Aspicuelta, a via "era um inferno todos os dias", segundo a moradora Rosa Tridico, de 50 anos

"Ficava uma multidão fumando maconha na rua, a calçada amanhecia com cheiro de urina, vivemos um inferno aqui por anos. A rua era fechada, mas a Prefeitura mandou reabrir em 2005. Só no ano passado é que conseguimos autorização para fechar de novo", conta a moradora. Os portões carregam uma placa com o número da lei de 2009 e a data da autorização emitida pelo governo no dia 18 de fevereiro de 2011. / DIEGO ZANCHETTA e RODRIGO BURGARELLI

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