JF Diorio/AE
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Por trás das cortinas do ''Mamma Mia!''

O que rola nos bastidores paulistanos do musical que já foi visto em 30 países

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2011 | 00h00

Quem assiste à cantoria incrivelmente harmonizada do musical Mamma Mia! supõe que o show exigiu do elenco disciplina espartana. Certo. Mas a coisa vai muito além das 368 horas de ensaio, permanentes aulas de canto, intermináveis provas de figurino. A Expedição Metrópole enveredou por bastidores e coxia da versão paulistana do espetáculo que já vendeu 2 bilhões de ingressos em 30 países e descobriu que:

1) Até mesmo os atores principais do show - os já veteranos Saulo Vasconcelos, de 37 anos, e Kiara Sasso, de 32 - tem de assinar lista de presença com duas horas de antecedência. Se a sessão é às 21 horas, como na quinta-feira passada, eles precisam provar que chegaram ali às 19h.

"Descobri em uma entrevista com o ator que faz Fantasma da Ópera na Broadway que lá eles chegam apenas 45 minutos antes", diz Saulo, sem se queixar. "Gosto de estar no teatro bem antes, me preparar com calma."

2) Durante toda a apresentação, ou mais de 2h30, uma equipe de fisioterapeutas fica a postos para fatalidades como tombos e pancadas em cena. As especialistas Fabiana Oishi e Lorena Shimeiske, que trabalham nos bastidores desde a época de A Bela e a Fera ("as perucas e os figurinos eram tão pesados que machucavam todo mundo"), têm no currículo atendimentos que entraram para a história do teatro musical no Brasil - cuja febre já dura mais de dez anos.

Elas contam, sem dizer nomes, que uma protagonista chegou a quebrar o cóccix em cena, depois de dar um agudo mais potente, e desmaiou. Foi preciso fechar as cortinas e recomeçar o show com um substituto. Em outra ocasião, a estrela tropeçou no próprio robe, caiu de cabeça e desfaleceu. "De repente, pluft, ela abriu os olhinhos e continuou", conta Fabiana. A própria Kiara lembra, fazendo uma careta, que pisou em um caco de refletor em uma cena longuíssima. "Você não imagina a dor, mas fui em frente", conta.

A fisioterapeuta explica que o cenário de Mamma Mia! é inclinado e leva atores a esforços de equilíbrio, entre subidas e descidas. Sem grandes traumas ou lesões, Saulo entra na sala de Fabiana, durante o espetáculo, para fazer exercícios de fortalecimento muscular preventivo. E o show rolando.

No camarim, entre uma cena e outra, os atores Cleto Baccic e Thiago Machado se dedicam a sessões de inalação com vaporizadores. Explicam que a secura do ar na cidade os obriga a hidratar a garganta nos intervalos.

3) Cada um dos oito atores principais do musical tem dois substitutos permanentemente à disposição. Eles fazem parte do coro do espetáculo, mas saem se for necessário. E são substituídos por alguém abaixo na hierarquia.

Entre os reservas, os mais exigidos são os chamados de "swing": não fazem parte do espetáculo, mas precisam saber de cor falas e danças de 15 personagens, para o caso de precisarem entrar no lugar de qualquer um deles. Faltas não são tão raras quanto se imagina. No dia em que a Expedição Metrópole esteve lá, a atriz Rachel Ripani, terceiro personagem principal, estava com dor de garganta. Entrou Cleo Tassitani. A administração conta que, em 220 apresentações, houve substituições em 60%.

4) Há oito meses em cartaz, o espetáculo já voa em céu de brigadeiro, graças a uma torre de comando minuciosamente treinada. "O volume de movimentos precisos no palco é muito grande. Tudo na engrenagem tem de ser detalhadamente pensado, até a possibilidade de acidente. Cenários, por exemplo, são automatizados, controlados por mecanismos às vezes complexos. Se der pau, o ator pode ser espremido entre duas paredes, ou atingido por um lustre", explica o "stage manager" Gustavo Collesi, de 30 anos.

As plaquinhas indicativas nas portas dos bastidores, todas em inglês, deixam claro que a produção é americana. Art director, company manager, ensemble feminino, masculino, pit singer, left stage e right. Na tradução para o português, Gustavo é gerente de palco. São quatro como ele. Por meio de monitores instalados na boca de cena, controlam luz, som, automação e contrarregragem. Aos sinais deles, os técnicos que estão no topo da plateia fazem todos os ajustes.

O tempo razoável em cartaz pode ocasionar efeitos colaterais, segundo Floriano Nogueira, de 40 anos, diretor residente do espetáculo - sim, até o regente do espetáculo tem seus duplos. "A gente não pode relaxar um instante em relação ao andamento do espetáculo. E não basta cuidar para que seja exatamente igual ao americano. É preciso tomar cuidado para que, depois de alguns meses em cartaz, o elenco comece a fazer as cenas mecanicamente", diz Floriano.

Por causa disso, o diretor se ocupou de reensaiar toda a primeira cena do segundo ato, a maior do espetáculo, com mais de cinco minutos.

Grololô. No camarim de Kiara, ela e Saulo cantam às gargalhadas um trecho de Supertrouper, que chamam de Chupa Truta. Quando a reportagem pede que eles lembrem de momentos engraçados, Saulo pergunta à colega: "Posso?" E revela então trechos inteiros que ela cantou na base do láralialraglorlolô. Kiara lembra, morrendo de rir, que é a "língua do grololô". "Às vezes, eu nem percebo, vai saindo..."

O espetáculo conta a história de uma garota que quer convidar o pai para seu casamento. Mas, como não o conhece, vai atrás. Descobre que a mãe transou com três homens há 20 anos, idade dela. Dá um jeito de convidar os três. Na versão para o cinema, o papel de Kiara é feito por Meryl Streep e o de Sam, um dos pais, por Pierce Brosnan.

Perto do fim do show, Gustavo Collesi mostra à reportagem os relatórios que precisa apresentar à matriz americana sobre cada espetáculo - em português e inglês. Ausências, atrasos, motivos, quem entrou no lugar de quem, controlou o som, a luz, a contrarregragem. Os americanos querem saber, principalmente, em que momentos o público aplaudiu o show em cena aberta. "Isso é um termômetro que eles consideram importantíssimo." Bem, na sessão da quinta-feira, havia 1.481 assentos ocupados no Teatro Abril, cuja lotação é de 1.500.E a plateia era bem animadinha.

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