Por que SP chegou à atual situação?

Ao contrário do que aconteceu em 2006, quando o PCC parou a cidade, os ataques do crime organizado passaram a ser em conta-gotas

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h01

Uma carta escrita com bela caligrafia e repleta de erros de português era uma das peças que faltavam para ajudar a compreender as causas da atual tensão vivida em São Paulo e o crescimento dos assassinatos neste semestre. Apreendido em Paraisópolis, na zona sul, o "salve geral" do Primeiro Comando da Capital (PCC) dava a "todos os irmãos da rua" as ordens que deveriam seguir a partir de 8 de agosto.

O recado era claro. Dois PMs deveriam ser executados para cada integrante do PCC morto. A ação seria uma resposta "às execuções covardes feitas pela Polícia Militar". Segundo o "salve", caberia ao "sintonia geral da quebrada" cobrar a "morte do irmão" com a execução dos PMs "da mesma corporação" que cometesse "a covardia".

A prisão de Francisco Antônio Cesário da Silva, o Piauí, em 26 de agosto, líder da facção em Paraisópolis, já havia revelado informação parecida aos homens das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) que o prenderam. "Vão morrer até os mamões (policiais da reserva)", ameaçou o criminoso ao ser detido, acrescentando que ainda morreriam "dois botas (PMs)" para cada "irmão".

Motivos. Como o "salve geral" confirmou, os ataques a PMs haviam sido ordenados pelas lideranças do PCC depois que mudanças na política de segurança pública, feitas pelo atual secretário Antonio Ferreira Pinto, aumentaram a atuação dos militares no combate à facção. Principalmente depois que os homens da Rota passaram a ser mais atuantes.

Ferreira Pinto assumiu a pasta da Segurança em 2009, em meio a uma crise de credibilidade dos policiais civis. Escândalos impensáveis tinham sido revelados, como o envolvimento de investigadores de Suzano com o sequestro do enteado de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC. O caso aconteceu em 2005. Policiais civis pediram R$ 300 mil para soltar o jovem. Marcola pagou, mas avisou que "não ia ficar barato". O achaque foi considerado um dos motivos para os ataques da facção no ano seguinte.

Quando passou a comandar a segurança, Ferreira Pinto optou por usar a Polícia Militar, corporação da qual havia sido oficial e em que mais confiava, para lidar com as informações vindas dos grampos e do serviço de inteligência do Ministério Público e da Secretaria de Administração Penitenciária. Os policiais civis seriam postos de lado.

A inteligência na investigação dos presídios tornou-se afiada e até interceptações telefônicas de crimes em andamento começaram a cair no grampo. Essas informações eram repassadas diretamente aos policiais militares, resultando em uma série de conflitos e de vítimas nas ocorrências, principalmente em supostas trocas de tiros com policiais da Rota.

No dia 28 de maio, por exemplo, três "boinas pretas" acabaram presos em flagrante acusados de executar um homem que já estava detido. Ele tinha sido levado depois de uma ação que causou a morte de outras cinco pessoas que participavam de uma reunião perto da Favela de Tiquatira, na zona leste.

Dois dos mortos na ação, José Arlindo e Júnior, eram figuras importantes do PCC em Cidade Tiradentes, também na zona leste. Poucos dias depois, no começo do mês de junho, a direção da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau apreendeu uma carta escrita por Roberto Soriano, o Betinho Tiriça, com nomes dos três integrantes da Rota acusados de matar a liderança do PCC.

Em agosto de 2011, seis acusados de roubar um caixa eletrônico em Parada de Taipas, na zona norte, já haviam sido mortos pela Rota. Em setembro deste ano, nove pessoas morreram em Vargem Grande Paulista, depois de a Rota flagrar criminosos no meio de um "tribunal do crime", em que integrantes do PCC julgavam informalmente um suposto estuprador.

O secretário tentou remediar e as ações destrambelhadas dos homens da Rota provocaram mudanças. Depois de apenas dez meses no cargo, Salvador Modesto Madia foi substituído pelo tenente-coronel Nivaldo César Restivo, ajudante de ordens do secretário e homem de sua extrema confiança. Ferreira queria saber de tudo que ocorria na corporação, mas já era tarde. Os criminosos também pediam sangue.

Futuro. Apesar da ajuda prometida na quinta-feira pelo governo federal e da possível parceria com o Estado, ainda é impossível prever os desdobramentos da violência em São Paulo, já que a cabeça dos integrantes do PCC também é imprevisível. Até ontem, 90 PMs já haviam sido mortos. Nos meses de setembro e outubro, os homicídios dobraram em relação ao mesmo período do ano passado.

Na periferia, a população passou a temer a Polícia Militar, suspeita de executar pessoas que ficam à noite na rua em represália aos assassinatos de policiais. Diversos boatos de toque de recolher se espalharam pelos quatro cantos da Região Metropolitana. E, ao contrário do que aconteceu em 2006, os atentados passaram a ser em conta-gotas. Diferentemente daquele ano, os atuais ataques não parecem ter data para acabar.

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