Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Muro da USP: por que os vidros da raia olímpica quebram?

Ao menos 16 painéis apareceram quebrados desde a inauguração parcial, em abril; último caso foi na quinta-feira, 2 de agosto; delegado considera caso 'uma incógnita'

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2018 | 06h52

SÃO PAULO - O cenário varia pouco: é madrugada, nenhuma pessoa está por perto e, no chão, o único indício são os cacos de vidro encontrados por um segurança ou um guarda. A situação já se repetiu em ao menos 16 painéis de vidro desde a inauguração do primeiro trecho do muro da Raia Olímpica da Universidade de São Paulo (USP), em 4 de abril. O motivo ou autor permanece, contudo, uma “incógnita”, como descreve o delegado Ubiraci de Oliveira, titular do 93° Distrito Policial (DP Jaguaré), responsável pelo inquérito. 

A primeira vez que um painel apareceu quebrado foi em 18 de abril, 14 dias depois da inauguração. O caso mais recente ocorreu por volta da 1h30 da madrugada de quinta-feira, 2 de agosto, menos de uma semana depois de outro vidro ter aparecido quebrado (igualmente de madrugada). Até a data, nenhum objeto foi encontrado no local que pudesse ao menos indicar o que quebrou um dos painéis - feitos de vidro temperado, considerado de três a cinco vezes mais resistente que o normal e costumeiramente utilizado em box de banheiro. A Prefeitura de São Paulo alega que a responsabilidade pelo muro é da USP, que, procurada pelo Estado, não comentou o assunto.

Os painéis quebrados são repostos com vidros que já estão no local, pois a doação já previa uma "carga extra de material", segundo a fabricante e doadora, Guardian Vidros. Na manhã de quinta-feira, 2 de agosto, homens trabalhavam no local, que está com entulho e terra revirada, além de parte do muro ainda ficar encoberto pelo anterior, de concreto.

Não há imagens de nenhuma das ações ou testemunhas. Um homem que teria visto uma pessoa atirar um objeto de um veículo em movimento chegou a ser ouvido pela polícia, mas voltou atrás na declaração. Em outro caso, um homem em situação de rua foi detido ao ser flagrado tentando furtar uma barra de metal do muro, mas, constatou-se que ele chegou ao local quando já estava quebrado. “Ele estava só passando pelo local, até se machucou", diz o delegado.

Uma equipe técnica analisou 11 painéis quebrados, dos quais cinco tiveram resultado “inconclusivo”. “Pode até ter quebrado por ação do tempo, deslocamento”, diz o delegado. Em outros três, descobriu-se que o vidro quebrou de fora para dentro (ou seja, possivelmente um objeto teria vindo da direção da pista) e, outros três, teriam partido de dentro do campus universitário. Isso não significa, contudo, que algo foi deliberadamente jogado contra a estrutura.

“Precisamos de uma testemunha ocular. Não existe testemunha, nenhuma denúncia no Disque Denúncia, no 181”, aponta o delegado. Segundo ele, todos os seguranças e guardas civis metropolitanos que trabalham no local foram ouvidos. Não há suspeita de envolvimento de funcionários do local com a quebra dos vidros.

No período noturno, seis agentes em duas viaturas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) fazem rondas no local. Oliveira ressalta, contudo, que, caso um suspeito seja identificado, isso não significará que ele é o responsável por todas as ocorrências envolvendo o muro.

Caso seja constatado que o painel foi deliberadamente quebrado, o autor será indiciado por dano qualificado ao patrimônio público, com pena de seis meses a três anos de prisão - passível de conversão de pena. Se o autor tiver cometido o crime mais de uma vez, poderá ter as penas somadas. “Nesses casos, às vezes já é solto na audiência de custódia”, explica.

Prefeitura de São Paulo nega responsabilidade pelo muro da USP

Em agenda oficial na manhã de 2 de agosto, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disse que tem respondido a "todas as solicitações que a USP apresenta". "Se trata de um muro da USP, a gente não tem como fazer, não tem ingerência para poder decidir o que vai ser feito", declarou.

"A Prefeitura se coloca sempre à disposição da USP, seja com a GCM, seja de qualquer outra forma que a USP entender necessária, para colaborar, para que a gente possa resolver o mais rápido possível e possa terminar de uma vez por todas essa obra", disse. 

Previsão era de entregar muro de vidro da USP completo em abril

O muro não foi entregue integralmente. A obra estava prevista para ser concluída até o fim de abril, totalizando 2,2 quilômetros de extensão. Segundo a Prefeitura de São Paulo, o projeto foi custeado por 45 empresas, que doaram de materiais a dinheiro e mão de obra, com custo avaliado de R$ 15 milhões.

Cada painel tem 1,8 metro de largura, 3,15 metros de altura e 12 milímetros de espessura. Eles são afixados em estruturas de alumínio emborrachadas, fixadas em uma estrutura de concreto. O projeto também prevê a revitalização de toda a área da Raia Olímpica da USP, com a instalação de câmeras de monitoramento, paisagismo e iluminação por LED.

“O muro da USP é incompatível com a cidade moderna e reforça a ideia de que a Universidade deve ser isolada e estar segregada da sociedade", declarou o então reitor Marco Antonio Zago no lançamento do projeto, em julho de 2017.

Declaração semelhante foi dada pelo então prefeito João Doria (PSDB) na inauguração do primeiro trecho. "É um orgulho para a cidade de São Paulo, um orgulho para o Estado de São Paulo, um orgulho para você, que gosta dessa cidade, quer ver São Paulo cada vez mais uma cidade linda.”

Os painéis são de vidro temperado, como de box de banho, que é de três a cinco vezes mais resistente que o comum, segundo o professor de Engenharia de Materiais da USP Samuel Toffoli. Para ele, vandalismo é a principal hipótese, pois o vidro temperado pode ser quebrado pelo impacto de um objeto, desde que pontiagudo (como um prego martelado, um projétil de arma ou uma pedra, por exemplo).

Toffoli aponta, ainda, que o dano pode ter outras causas, como falta de espaço adequado para a trepidação do vidro, o que pode causar pequenas fissuras invisíveis devido ao intenso tráfego de veículos no entorno, por exemplo.  As empresas Ci & Lab e Crescêncio Petrucci Jr., que participaram da obra, declararam ser “pouco provável” um problema no projeto.

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