Por que esquecemos a primeira mamada

Todos perdemos as memórias da primeira infância. Não lembramos da primeira mamada ou dos primeiros passos. A razão desta perda precoce foi descoberta.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2014 | 02h08

A memória é formada por relações entre informações isoladas. Podemos não lembrar do nome de uma pessoa, mas lembramos de sua face ou de um acontecimento em que ela estava presente. A face está lá, o nome também, mas o fio que os ligava foi ficou fraco. Precisamos "puxar pela memória". Hoje, sabemos que as memórias estão armazenadas em circuitos formados por neurônios. Quando os circuitos desaparecem, ou pela perda de neurônios ou pela ruptura de parte das ligações, os elementos memorizados desaparecem ou perdem a conexão um com o outro.

Modelos matemáticos sugerem que basta alterar as relações ou o número de neurônios nesses circuitos para que a memória seja alterada. Ao envelhecer, perdemos neurônios, a rede fica menos conectada, e as memórias se vão. O mesmo ocorre no caso de derrames ou acidentes. É fácil imaginar que, adicionando novos neurônios à rede, as relações entre os neurônios se alteram e a memória deve ser afetada.

Faz alguns anos, os cientistas descobriram que em uma região do hipotálamo responsável por armazenar as memórias relativas a eventos e lugares, o número de neurônios continuava a aumentar após o nascimento. Este aumento, que se deve à divisão dos neurônios pré-existentes, se torna mais lento com o passar do tempo. Logo se imaginou que essa mudança no hipotálamo pudesse explicar a perda de memórias adquiridas logo após o nascimento. Mas uma coisa é imaginar, outra é demonstrar. Agora essa hipótese foi demonstrada experimentalmente.

Para contar o número de neurônios no hipotálamo, os cientistas fizeram microinjeções de um vírus modificado. O vírus emite luz e se divide quando as células se dividem. Assim, se no dia da injeção haviam cem células e, dez dias depois, haviam 120 células, os cientistas podiam afirmar que 20 novas células haviam sido incorporadas à rede de neurônios. Para criar memórias e testar sua duração, os cientistas colocaram os animais em um ambiente novo e os submeteram a choques nos pés. Os camundongos aprendem a associar o ambiente aos choques e, quando são novamente colocados neste ambiente, "congelam", evitando se mover. Quando essa memória é perdida, a reação de "congelamento" desaparece. Foi usando a combinação desses dois métodos que os cientistas demonstraram que o aumento no número de células no hipocampo está associado à perda da memória.

Num primeiro experimento, foi demonstrado que, quanto mais cedo após o parto a memória era gravada, menos tempo ela durava, e quanto mais tarde, mais tempo ela durava. E esta observação estava correlacionada ao aumento do número de neurônios nos circuitos do hipocampo. Aumento maior, memórias mais efêmeras. Num segundo experimento, os cientistas induziram um aumento rápido do número de neurônios forçando os animais a se exercitar. Neste caso, quando a adição de novas células é acelerada, as memórias duram menos. Num terceiro experimento, utilizaram drogas para reduzir a velocidade com que as células se dividiam e mediram simultaneamente a duração das memórias. Como previsto, as memórias passaram a durar mais tempo quando menos neurônios eram adicionados ao hipocampo.

Finalmente, os cientistas foram em busca de animais, que, ao contrário dos camundongos e seres humanos, não apresentavam um aumento do número de células no hipocampo após o nascimento. Eles encontraram dois roedores com essas características, o Octodon degus (um roedor nativo do Chile) e os porquinhos da Índia. Quando os experimentos foram repetidos com estes animais, os cientistas puderam demonstrar que os animais não perdem as memórias formadas na primeira infância. Se eles aprendem a ter medo de um ambiente logo ao nascerem, nunca mais perdem esse medo.

Esses experimentos demonstram que camundongos, e provavelmente seres humanos, perdem as memórias da primeira infância porque seu hipocampo ainda está em desenvolvimento logo após o nascimento. Novos neurônios ainda estão sendo incorporados aos circuitos que armazenaram essas memórias.

E nós, como seríamos se não tivéssemos esquecido de nossa primeira mamada? Já imagino psicanalistas conjecturando como seria tratar um porquinho da índia.

MAIS INFORMAÇÕES: HIPPOCAMPAL NEUROGENESIS REGULATES FORGETTING DURING ADULTHOOD AND INFANCY. SCIENCE VOL. 344 PAG. 598 2014

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