WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?

Mudanças climáticas, registro de baixas temperaturas no oceano e ocupação não planejada de encostas e áreas de risco agravam problemas

Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 22h39

SÃO PAULO - A pergunta é: por que está chovendo tanto no Sudeste? Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que um conjunto de fatores é o responsável pelas chuvas extremas - basicamente o encontro de questões meteorológicas com problemas socioambientais. “Mas nada que já não fosse apontado por relatórios científicos há cinco ou dez anos”, disse André Ferretti, mestre em Ciências Florestais e gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário.

Segundo a meteorologista da Climatempo Josélia Pegorim, este é um verão em que o Oceano Pacífico está apresentando um comportamento neutro. “Não temos El Niño ou La Niña. Então, quando isso acontece, a influência do Oceano Atlântico ganha mais relevância. Como a temperatura ali tem permanecido mais fria (sem muitas alternâncias), criaram-se corredores de umidade que partem de norte para sul. Esses corredores de umidade e mais a passagem de frentes frias formam a engrenagem que tem resultado em fortes chuvas.

De acordo com o pesquisador e meteorologista Giovanni Dolif, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), trata-se ainda de uma combinação de fatores em diferentes escalas de tempo e espaço. “Na atmosfera existe a formação de grandes vórtices, que costumam se formar em períodos mais frios e nas camadas médias da atmosfera. Esse ar frio favorece a subida do ar mais quente e úmido, formando nuvens carregadas e, consequentemente, as chuvas”, disse.

Ferretti disse que o País não se preparou para isso e “está à mercê de temperaturas mais extremas, o que é também um novo padrão”. “A impermeabilização do solo das regiões metropolitanas cria ilhas de calor. Essa massa de calor que interage com a umidade acaba provocando precipitações mais fortes”, explicou. “Nós tiramos das nossas cidades a capacidade de absorção do excedente de água.”

Para a professora Cecília Herzog, pesquisadora da PUC-Rio, a saída é trazer a natureza de volta para as cidades, como “solução”. “Precisamos de um sistema com abertura de córregos - e não canalizações. E, claro, de políticas habitacionais pensadas para a população de baixa renda”, disse. 

Para o pesquisador Ivan Carlos Maglio, do programa Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), os temporais no Sudeste podem estar relacionados com as mudanças climáticas. “As previsões são muito ruins nesse sentido, pois essas chuvas intensas vão se repetir. Há algum tempo, chuvas de 120 milímetros no mesmo dia aconteciam a cada 50 ou 100 anos. Agora, estamos vendo esse fenômeno se repetir em poucas semanas, como aconteceu este ano em Minas, no Espírito Santo e na Baixada Santista.”

Segundo ele, ex-coordenador de planejamento ambiental da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, as cidades não se prepararam para esses eventos extremos. “Todos sabiam que ia chover muito no litoral, mas não houve planejamento, um alerta para as pessoas em áreas de risco. Como houve ocupação das encostas, e agora fica difícil remover as habitações, é preciso pelo menos ter um plano de contingenciamento, com avisos, sirenes, planos de evacuação e atendimento a possíveis desastres.”

Em grande parte do litoral paulista, por exemplo, Maglio menciona o fenômeno de ocupação desordenada de encostas e áreas de risco e de lugares que não deveriam ter construções. “Do ponto de vista geológico, a gente sabe onde podem acontecer deslizamentos. O problema é tirar as pessoas que estão lá. A saída é elaborar planos de adaptação climática, como está acontecendo em Santos. São projetos que preparam as comunidades para o risco e para minimizar os danos, principalmente perdas de vida.”   

Ele chama o que está acontecendo com o clima de “novo normal”. “A gente sabe que isso vai acontecer de novo. É preciso adaptar inclusive obras de infraestrutura, como ruas, estradas, sistemas de drenagem, a essa nova realidade. Para as comunidades em áreas de risco, é urgente que se façam planos de gerenciamento para evacuação rápida, tendo estruturas de prontidão para remover, socorrer e abrigar. Tem de retirar antes, não esperar a tragédia acontecer.”

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