Por dentro da 'tropa de choque' dos protestos

Grupo que liderou depredações na terça-feira ajuda a entender complexidade das passeatas

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2013 | 02h07

A "destruição de bens materiais" pode ser um instrumento poderoso para se fazer política. Essa crença, defendida pelos Black Blocks, espécie de tropa de choque anarquista dos manifestos, ajuda a entender a complexidade do caldo de ideias das últimas passeatas em São Paulo.

Formados por cerca de cem integrantes, os Black Blocks são um entre as dezenas de grupos que participaram nesta semana das passeatas contra o aumento da passagem na capital. Na terça-feira, lideraram as depredações, que foram suspensas na quinta-feira. Ainda engrossam a massa nas passeatas diversos partidos de esquerda e movimentos sociais tradicionais, sindicatos e coletivos pós-modernos. Os últimos são considerados a alma e o motor das manifestações.

Apesar de ainda desconhecida e incompreendida por políticos e policiais militares, essa nova configuração de protestos e grupos sociais organiza manifestações políticas em São Paulo desde o começo da década passada. A popularização das redes sociais, principalmente do Facebook, é reconhecida como um importante catalisador dos protestos gigantescos e impactantes ocorridos neste ano.

"Nós, os anarquistas, não consideramos a destruição de bens materiais como um ato de violência. A violência ocorre contra a pessoa. Destruir um banco que apoia Belo Monte e atinge os índios, por exemplo, é ação de combate à violência", disse o fotógrafo Vagner Luis (o nome, sugerido por ele, é fictício), integrante dos Black Blocks, que participou das quatro passeatas. Ele explica que, para o grupo, o vandalismo só deve ocorrer como reação às agressões policiais. Nunca antes.

Em São Paulo, a primeira manifestação de peso que marcou a origem das ações dos novos coletivos sociais ocorreu em abril de 2001. Dois mil manifestantes, estudantes e muitos punks entraram em confronto com cerca de 100 policiais militares e transformaram a Avenida Paulista em um campo de batalha. Naquela época, os protestos eram contra o Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca).

Os coletivos ainda eram fortemente inspirados pelos movimentos anticapitalistas, que começaram a ganhar popularidade em 1998 em Gênova, na Itália, no movimento Ação Social dos Povos (AGP). Atingiu Seattle no ano seguinte, nas reuniões da Organização Mundial de Comércio, seguindo para diversos países da Europa. A destruição de símbolos capitalistas, como lanchonetes e lojas de roupas, por jovens mascarados envoltos por nuvens de gás lacrimogêneo, se tornou a imagem desses processos.

Com o tempo, esses grupos passaram também a discutir questões urbanas, relacionadas aos problemas das cidades, tendo o Movimento Passe Livre (MPL), cuja bandeira principal é o transporte coletivo, como um dos principais expoentes.

Em Salvador, na Bahia, ocorreram as primeiras manifestações do MPL contra a passagem de ônibus. Durante dez dias, as ruas foram bloqueadas e os protestos forçaram as autoridades locais a negociar com os manifestantes. "Aprendemos com aquele episódio porque os protestos pararam com conquistas intermediárias, que garantiram meia-entrada a estudantes de pós-graduação, por exemplo. Mas não conseguiram barrar os aumentos. Depois disso, só aceitamos parar com a reversão do aumento", explica o estudante de Filosofia Marcelo Hotimsky, de 19 anos, do MPL.

Era Kassab. Na capital, o MPL já fez três outras ondas de protestos: em 2006, 2010 e 2011. Nas duas últimas, durante a gestão de Gilberto Kassab, o movimento começou a decolar, mas longe de alcançar o impacto deste ano. Estudantes se mobilizavam na frente da casa do prefeito, o seguiam em eventos públicos e faziam pequenas mobilizações, que não provocavam confrontos.

"Nessa época, o Facebook ainda não havia se popularizado e a ferramenta foi importante para aumentar os simpatizantes. Mas as visitas a escolas, grêmios, centros acadêmicos e ocupações foram decisivos", diz o estudante de História Caio Martins, também do MPL.

Martins também avalia que a nova geração de manifestantes se habituou a sair às ruas nos últimos dois anos, nas seguidas passeatas na Avenida Paulista, e perderam o temor da polícia. "Nossa geração perdeu o medo de sair às ruas", resume.

A opção pelo confronto com a PM e o vandalismo teve efeitos práticos, aumentando a visibilidade dos protestos. A resistência e o ímpeto dos manifestantes deixaram policiais e sociedade assustados, em uma cidade acostumada a receber anualmente eventos e passeatas que, segundo os organizadores, levam 4 milhões de pessoas às ruas.

Na quinta-feira, depois da repercussão negativa do quebra-quebra, os Black Bocks haviam decidido não vandalizar. A Polícia Militar, ainda impactada pelo últimos acontecimentos, acabou apelando para a violência contra os manifestantes e se mostrou despreparada para lidar com tanta novidade. A violência do Estado acabou aumentando o apoio da população à causa do grupo nas ruas.

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