Ponte de Euclides sofre com tráfego pesado e ferrugem

Travessia sobre o Rio Pardo, no interior paulista, foi recuperada pelo escritor há quase 111 anos, enquanto escrevia 'Os Sertões'

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h02

Tombada como patrimônio histórico em 1986, a ponte construída por Euclides da Cunha há quase 111 anos em São José do Rio Pardo, no interior paulista, está enferrujada e corre o risco de ter a estrutura comprometida definitivamente, caso não seja feita uma reforma com urgência. Uma ação movida pelo Ministério Público Estadual, transitada em julgado, condenou a prefeitura e o governo estadual a encontrar uma solução.

Mas o projeto de recuperação apresentado pelo município em maio de 2009 segue emperrado no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Mais do que uma passagem sobre o Rio Pardo, a ponte é chamada de "obra irmã" de Os Sertões. Tudo porque Euclides a retirou das águas e a reconstruiu, entre 1898 e 1901, quando era engenheiro do setor de fiscalização do Departamento de Obras Públicas de São Paulo. Tocou a obra ao mesmo tempo em que, em uma cabana de zinco, escreveu o livro que retratou os horrores da Guerra de Canudos (1896-1897).

"A ponte não pode ser roída pela traça da burocracia. É preciso que esse órgão (Condephaat) não fique apenas em uma atitude estática, mas que também oriente. Se há algo emperrado, que ele tome as providências para desemperrar ou diga o que é preciso ser feito", afirmou o presidente do Conselho Euclidiano, Márcio José Lauria.

A última reforma ocorreu em 1985. Em 2001, um estudo solicitado pelo Ministério Público já apontava ferrugem na estrutura e necessidade de restauração. Dez anos depois e sem sinal de que a obra sairá do papel, a situação é preocupante. "Não sou engenheiro, mas tenho medo quando passo por lá. Principalmente por tudo o que eu sei a respeito dela", diz o promotor José Luiz Zan, que acompanha o caso desde o início.

Danos. Um dos principais problemas da ponte está nos roletes, peças metálicas entre o corpo da ponte e suas bases de alvenaria. A grosso modo, os roletes dão uma folga para que toda a estrutura dilate (o que acontece com o metal no calor) sem afetar os pilares. Com o passar do tempo, as peças ficaram ovaladas, transferindo o esforço diretamente para as bases. "Remover os roletes, suspendendo a ponte com macacos hidráulicos, seria arriscado, poderia romper os rebites. No projeto de reforma, especificamos a colocação de uma supergraxa como forma de dar mobilidade à estrutura sem correr esse risco", diz o secretário de Obras do município, Marco Aurélio Feltran.

Também preocupa o tráfego intenso sobre a ponte, até de veículos com mais de 9 toneladas, o que é proibido. "Está vetada para caminhões e ônibus, mas temos fotos que os mostram passando à noite", diz o responsável pelo movimento que pede a reforma pela internet, Rafael Kocian. "A ponte não é parte só do cotidiano rio-pardense, mas também da história nacional."

Segundo a arquiteta Rosana Parisi, a passagem está em processo avançado de deterioração. "Se providências não forem tomadas, tanto a estrutura metálica quanto a de concreto podem ser abaladas. Sem o laudo de um especialista e projeto detalhado, não há como precisar o que pode acontecer, mas há casos de pontes que ruíram pelos mesmos problemas."

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