Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Poluição cruza mais de 100 km no Estado

Prefeituras investem em recuperação, mas é difícil acabar com 'mar' de lixo e espuma

JOSÉ MARIA TOMAZELA / SALTO, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2013 | 02h14

"Parece neve, mas o cheiro é de esgoto", diz a estudante Jenifer Correa da Silva, de 13 anos, diante do mar de espuma que cobre o Rio Tietê logo abaixo da cachoeira de Salto, a 104 km de São Paulo.

Confiando na despoluição do rio, a prefeitura investiu na recuperação de antigos espaços turísticos, como a Ilha dos Amores e a centenária ponte pênsil, totalmente restaurada, e ainda instalou o Memorial do Rio Tietê para contar a história do principal rio paulista. "Faltou combinar com quem está rio acima, principalmente na Grande São Paulo, pois as águas chegam aqui tão carregadas de poluição que viram espuma", diz Gláucia Vecchi, monitora do memorial.

Ao longo dos 80 quilômetros entre Santana de Parnaíba e Porto Feliz, o rio continua tão poluído quanto há 20 anos, dizem os moradores. "A espuma até aumentou e tem dia que não dá para respirar", diz Monica Coelho, comerciante de Pirapora do Bom Jesus. Segundo ela, quando a Barragem do Rasgão libera água o manto branco cobre o rio. "Tem turista que até gosta, mas quem mora aqui não suporta mais."

O prefeito Gregório Rodrigues Maglio (PMDB) conta que, na década de 1980, quando havia passeios de barco no Tietê, a cidade recebia 10 mil turistas por fim de semana. "Hoje, o turismo está reduzido às romarias do Bom Jesus, mas não chega a um terço do que era." Maglio lidera um movimento para que as cidades atingidas pela poluição sejam indenizadas. "Pirapora deixou de crescer por causa da poluição."

O rio que passa quase morto em Pirapora do Bom Jesus agita-se nas corredeiras de Cabreúva e cria belos cenários ao cortar remanescentes de Mata Atlântica. "É o trecho mais bonito, mas não podemos explorar o turismo por causa da poluição", diz a secretária de Meio Ambiente, Rosemeire Rabelo Timporim. Na Jornada do Tietê, hoje, a cidade vai reafirmar a posição contra o projeto de instalação de pequenas centrais hidrelétricas nesse trecho do rio. O represamento, segundo Rosemeire, acabaria com as corredeiras, agravando a poluição.

A cidade de 42.301 habitantes trata 90% do esgoto. "Fizemos a lição de casa, mas estamos sendo castigados pela omissão dos outros", diz a secretária de Cabreúva.

O rio continua e passa por Salto. Lá, quando ocorrem enchentes, o campo de futebol da Associação Atlética Avenida fica coberto de lixo. O presidente do clube, João Wolf, de 74 anos, vê-se obrigado a contratar carregadeiras e caminhões para retirar toneladas de sujeira. "Ultimamente, estou mandando jogar de volta no rio, pois quem trouxe, que leve."

Menos sujo. De Salto a Porto Feliz, o rio corta belas paisagens e atrai muitas aves, mas ainda é possível ver plásticos pendurados nas margens. Depois de passar por Tietê, o rio que deu nome à cidade recebe as águas do Sorocaba e chega mais limpo a Laranjal Paulista.

Nesse trecho está prevista a construção de duas barragens para gerar energia e estender a navegação para além de Conchas. O projeto, em fase de licenciamento, pode dar novo impulso à economia da região, segundo os prefeitos.

O Tietê é navegável a partir do Terminal de Conchas. A hidrovia segue para Anhembi, onde começa o lago da hidrelétrica de Barra Bonita. A abundância de peixes garante a subsistência de pescadores. Mas o lago está assoreado. Um projeto visando ao afundamento da calha navegável está em estudo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.