Política de transporte de São Paulo ignora bicicletas como meio

Enquanto cidades do mundo incentivam o uso da bicicleta como transporte, capital trata questão como lazer

Carolina Spillari, estadao.com.br

26 de julho de 2008 | 18h51

Adotada como alternativa para amenizar o trânsito em várias cidades do mundo, a bicicleta é considerada como um item de lazer em São Paulo. Dos quase inexpressivos 23,5 km de ciclovias existentes na cidade (Paris possui 371 km), somente 4,5 km estão em ruas. A maioria das pistas, 19 km, está nos parques. O Metrô só permite o transporte de bicicletas dentro dos vagões nos fins de semana.  Veja também:Sem projetos, candidatos dão palpites sobre ciclovias em SPRadial Leste terá a próxima ciclovia de São PauloCPTM amplia bicicletários em estações de trens de SPSecretária supera medo e pedala para ir ao trabalho em SP  Além da hostilidade de um trânsito que prioriza os veículos motorizados, quem se aventura a andar de bicicletas pelas ruas da cidade enfrenta um obstáculo institucional, pois a questão sequer é tratada pela Secretaria Municipal dos Transportes, que não considera o veículo em suas ações para melhorar o trânsito na metrópole.  Apesar de uma lei estar em vigor determinando o incentivo à ampliação de ciclovias, as tímidas iniciativas para implantação das vias exclusivas ou compartilhadas estão sob a alçada da Secretaria do Verde e Meio Ambiente. A estimativa, segundo pesquisa Ibope/Nossa São Paulo do final de 2007, é de que cerca de 370 mil pessoas usem a bicicleta para se locomover na cidade todos os dias.  Para sair do papel e virar realidade as ciclovias percorrem um caminho tortuoso na administração municipal e a maioria acaba engrossando a fila de projetos não executados. Hoje apenas uma está em construção na cidade, na Radial Leste. Dentro do município não existe um órgão que faça as ciclovias virarem realidade. Os projetos são avaliados pela Secretaria do Verde em conjunto com outras secretarias, mas poucos são concluídos. As propostas que surgem das próprias subprefeituras acabam sem um agente que as atenda. Isso porque entre os órgãos envolvidos no trânsito do município não há tradição no assunto bicicletas, afirma a coordenadora do Grupo Executivo da Prefeitura para Melhoramento Cicloviário - o Pró-ciclista, Laura Ceneviva. "Não existe quem cuide da circulação não-motorizada formalmente." Segundo ela, o que falta para a concretização das vias para bicicletas, assim como ciclofaixas e sinalização adequada são os agentes envolvidos - 31 subprefeituras, coordenação das subprefeituras, Secretaria Municipal de Transportes, SP Trans, CET, Emurb, Ciurb e Ceab (responsável pelo assentamento da população de baixa renda) - assumirem a questão. "Esses inúmeros órgãos sempre necessitam da colaboração da CET, que é quem controla o tráfego, é operador da infra-estrutura, da circulação", explica Laura.  Meio Ambiente Os projetos de ciclovias são estudados pela Secretaria do Verde pelo compromisso com o meio ambiente. O Grupo Pró-ciclista encaminha projetos para construção de ciclovias em toda a cidade, mas a Secretaria do Verde não tem poder para execução e licitação de obras. Sem uma política específica para a construção de ciclovias, a cidade fica dependendo de autorizações específicas da Prefeitura. Foi assim que começou a ser desenvolvida a ciclovia da Radial Leste. A parceria foi da Prefeitura com o Metrô, que licitou e executa a obra. A Secretaria do Verde só pode fazer ciclovias dentro de parques.  Para o engenheiro de tráfego e consultor da Associação Brasileira de Medicina no Tráfego, Horário Figueira, ciclovias e ciclofaixas deveriam fazer ligações entre bairros e não estarem só em áreas de lazer. "Estacionamentos para bicicletas deveriam surgir em meio aos exclusivos para carros", sugere. "Mudar a forma de locomoção é quebrar paradigmas dentro da cultura do automóvel, que é um grande câncer", afirma Horário. A retirada dos caminhões não será suficiente para evitar o colapso do trânsito, sustenta. Em São Paulo, bairros como Pinheiros e Moema são citados pelo engenheiro de tráfego como adequados à construção de ciclovias.  Caminhos A baixa demanda - se comparada ao número de veículos motorizados - não pode ser justificativa para não se investir em ciclovias. "Se houvesse rotas, muita gente estaria disposta a ir de bicicleta", diz Lisandro Frigerio, arquiteto e urbanista da Assessoria Técnica de Operações Urbanas (Atou) da Secretaria Municipal de Planejamento.  Se a infra-estrutura for criada muita gente não vai ter problema em utilizá-la". É possível traçar rotas em avenidas totalmente planas da cidade, afirma o urbanista. E nesses casos, a topografia não é um problema.  Como exemplo, citou um caminho que iria do Parque Villa-Lobos, passaria pela Professor Fonseca Rodrigues, Pedroso de Morais e chegaria até a Faria Lima. Outra possibilidade é sair da Avenida Sumaré (que já conta com uma ciclovia, que por canta da falta de sinalização virou pista de cooper), em seguida pegar a Paulo VI, Henrique Schaumann, Avenida Brasil e chegar ao Parque do Ibirapuera. Na Marginal Pinheiros ele afirma que também é possível fazer um caminho para as bicicletas ao longo de toda a extensão da via, desde o Cebolão.

Tudo o que sabemos sobre:
cicloviasbicicletastrânsito

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.