Política, balada e beijos na Parada

A 14ª edição do evento condena homofobia e jovens 'roubam selinho' por diversão

Filipe Vilicic, Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2010 | 00h00

A 14ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo pregou ontem o voto contra a homofobia diante de mais de 3 milhões de pessoas. Ao longo do evento, encerrado por volta das 20h30, o repúdio a políticos que são contra os gays se misturou à onda dos que foram à Avenida Paulista e ao centro para badalar, beijar, ver e ser visto. Tudo registrado pelas câmeras digitais e celulares em um evento com poucas ocorrências policiais e apenas duas prisões.

"Este é o nosso Natal, um momento de visibilidade, em que discutimos questões vigentes, e de festa", afirma Franco Reinaudo, coordenador-geral da Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual da Prefeitura. "Neste ano, mostramos que devemos votar em quem tem um posicionamento à favor do movimento. Há muitos políticos evangélicos que são contra gays."

A mensagem cativou alguns, como o arquiteto Adriano Bombonatti, de 39 anos. Seu namorado destacou outro fim da Parada. "Aqui é onde todo mundo pode ser o que é", opina o assistente comercial Fernando Menezes, de 31 anos. "Não é fácil achar um lugar onde podemos nos soltar. Principalmente para quem vem de fora de São Paulo."

Beijaço. A maioria dos que estavam por lá tinham esse objetivo mesmo: se jogar, dançar. E beijar muito. Havia até quem dava bitocas só para chamar atenção, aparecer em fotos - e não estava nem aí para as pretensões políticas do evento.

Muitos (na maioria, jovens) se divertiam beijando "gente de todos os sexos" com o pretexto de fazer uma foto para recordação. E escolhiam, para aparecer, os que consideravam mais chamativos ou atraentes.

"Beijei os "boy", as "mina", as drag e até os "traveco"", conta a atendente de telemarketing Larissa de Cássia dos Santos, de 22 anos. Ela foi com um grupo de amigos de Santana, na zona norte, onde mora. Todos riem demais depois de beber "muita chapinha" (vinho barato).

Larissa mostra as fotos que fez, no visor da câmera, uma com a drag Teila Thompsom, "com h", que vestia uma roupa de "cristais" roxos e amarelos.

"Todo mundo gosta de fazer foto comigo, mas agora apareceram essas "descabeçadas" pedindo pra beijar. Deus me livre, ainda se fosse "um bofe maravilhoso"", diz a bancária Teila, que beijou Larissa e os amigos dela "só pra me deixarem em paz".

Um pouco acima, no sentido centro da Rua da Consolação, outro grupo se embola no chão às gargalhadas, enquanto tiram fotos de si mesmos em uma espécie de "beijo múltiplo". O estudante Cleber Matias, de 19 anos, se fotografa beijando todos os amigos e amigas do grupo, que inclui lésbicas, gays e heterossexuais.

A atendente Sabrina Oliveira, de 18 anos, conta em tom de façanha que beijou "até um bombeiro". No "portifólio" da balconista Cinthia Batista, de 18, ela aparece beijando "freiras", "marinheiros" e "motoqueiras". Naquele momento, ela não sabe dizer sua orientação sexual. "O que é isso, tio?"

Valentina Ribaudo

TRÊS PERGUNTAS PARA...

Bailarina italiana que dançou por cima do público da Parada, pendurada em um balão

1.Você não tem medo de dançar no ar?

Faço isso há 15 anos, em shows ao redor do mundo, e nunca tive receio. No alto, tenho a sensação de que sou um passarinho, leve e livre.

2.O ato de voar tem relação com a manifestação da Parada, que promove a diversidade?

Aqui eles batalham para poder se expressar suas opções sexuais. Eles querem a mesma liberdade que sinto voando. Só que a minha é só arte. Eles desejam algo mais real.

3.Qual é a sensação que sua performance desperta na plateia?

De que todos podem voar, como eu, e se sentir leves e livres.

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