LUCAS LACAZ RUIZ
LUCAS LACAZ RUIZ

‘Policial precisa aprender a controlar a raiva’, diz pesquisador

Professor da USP reforça necessidade de aperfeiçoar treinamento da tropa e critica a reação desproporcional das polícias

Entrevista com

Leandro Piquet Carneiro

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - No momento em que o policial opta por atirar contra um suspeito durante uma perseguição está acontecendo ali, acima de tudo, uma decisão emocional embasada muitas vezes por raiva ou medo. A interpretação do professor da Universidade de São Paulo (USP) Leandro Piquet Carneiro aponta para a necessidade de um treinamento que desfaça essa prática de violência, escolhendo uma saída que, ao mesmo tempo, proteja o agente e seja mais eficaz para o sucesso da ação. Confira a entrevista com o professor:

As reações violentas da Polícia Militar se repetem, por quê?

Por qualquer standard internacional, isso não tem justificativa. Furar um bloqueio ou um perseguição, ou mesmo quando há uma reação armada em uma abordagem, a primeira recomendação, que estão nos procedimentos operacionais, é para evitar o confronto. Essa repetição de casos indica falha de, sobretudo, supervisão e controle do dia a dia da operação policial. Esses policiais não são pessoas incompetentes. Não é isso que estou dizendo, mas eles tomam decisões erradas e é muito difícil fazer com que o policial tome a decisão certa sempre.

As decisões têm um sentido emocional profundo. Essa é a dificuldade, fazer com que não só treinamento, mas o controle, qualificação contínua produza uma resposta emocional profunda no sentido de não reagir. Enquanto não conseguirmos controlar, não veremos a legitimidade da ação policial e aí vai criando um ciclo de problemas, de decisões erradas o tempo todo.  Tem de ser um processo desenhado para quebrar a resistência e transformar o padrão de resposta. 

De onde vem essa natureza de reação?

Do treinamento insuficiente. O policial precisa aprender a controlar o medo, a emoção, a raiva, que é uma coisa muito difícil de ser feita. São reações muito profundas. E eles estão submetidos a carga longas de trabalho, muitas vezes com hábitos de vida pouco saudáveis. Tudo pesa na hora de uma reação. Se ele está sob tensão, se está cansado, isso tem efeito direto nessas decisões. É um trabalho de altíssima responsabilidade e é difícil criar respostas condicionadas, automáticas, em grandes instituições, mas a tarefa é essa.

Por vezes, a resposta das autoridades têm sido que os criminosos tem reagido de forma mais violenta também. Como o senhor avalia essa posição?

Os criminosos são cada vez mais violentos, é verdade. Isso por uma razão muito simples: a única chance de você ser preso, de fato, é em flagrante. Se foge do flagrante, a investigação da Polícia Civil dificilmente conduzirá a uma prisão. Isso termina criando um incentivo muito forte de fuga. Uma coisa é constatar isso, outra coisa é achar que a resposta a esse problema permite que o emprego da força seja cada vez maior, isso é uma conclusão que não é lógica. É uma falha geral do sistema. 

Sabemos que enquanto parte da sociedade se distancia quando nota ações violenta da PM, outra parcela, que nem sempre sofre os efeitos dessas ações, a apoia. Como responder a essa posição?

Só encontramos solução para isso dentro de um contexto de aumento de escolaridade e transição geracional. Não vejo muito como mudar fora disso. Essa torcida pela violência policial não deve ser levada em conta como resposta pelas instituições. 

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