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Policiais matam professor de jiu-jítsu

Parentes e amigos falam em execução e caso está sendo apurado pelo DHPP; responsáveis pela abordagem farão só serviço administrativo

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h04

O professor de jiu-jítsu Alex Sandro do Nascimento, de 41 anos, foi morto na noite de anteontem com três tiros de metralhadora por agentes do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra) no Cambuci, região central de São Paulo. Segundo os policiais, Nascimento - que não tinha antecedentes criminais - estava armado e tentou disparar contra eles durante a abordagem. A versão é contestada por familiares e amigos, que dizem que ele foi assassinado.

O delegado Mario Palumbo Júnior, de 38 anos, e os investigadores José Augusto de Novaes Neto, de 31, e José Marcelo Sposito, de 30, contaram ter recebido denúncia de tráfico em cortiço na Rua Muniz de Souza. No local, abordaram moradores e teriam ouvido dois disparos. Enquanto o delegado e um investigador checavam o que havia ocorrido, Novaes Neto ficou tomando conta de três averiguados.

Segundo a versão oficial, dois deles teriam fugido. Já o professor de jiu-jítsu teria sacado um revólver 32 e disparado. A bala, no entanto, falhou. E Nascimento foi atingido pelo investigador com três tiros. Policiais dizem que ele foi socorrido e levado ao hospital, onde chegou morto. O médico encontrou 52 pedras de crack em seu bolso, de acordo com os integrantes do Garra.

Familiares do professor estão revoltados. Segundo eles, Nascimento foi morto pelos policiais após ter sido dominado com violência. Ele dava aulas em duas academias, era separado e tinha duas filhas, de 10 e 3 anos. Na noite da morte, foi até o portão buscar uma pizza. Uma adolescente com quem ele conversava no momento da abordagem pode ser a testemunha chave do caso, mas ninguém sabe onde ela está.

Indagado a respeito em Brasília, o governador Geraldo Alckmin afirmou que, caso tenha ocorrido execução, a tolerância com os policiais "será zero". Mas Jorge Carrasco, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pela investigação, disse confiar na versão dos policiais. "Presumo que sempre falam a verdade. Se mentiram, serão demitidos a bem do serviço público. É rua."

Carrasco disse ainda que se algo foi forjado vai aparecer nas investigações. "Não adianta. Se houve erro operacional, será apurado. Temos metodologia, provas que na maioria das vezes são incontestáveis." Segundo o diretor do DHPP, a droga só foi descoberta com Nascimento no hospital porque não houve tempo de revistá-lo. Carrasco afirmou ainda que o local é um conhecido ponto de tráfico. Desde ontem, responsáveis pela abordagem só podem fazer serviços administrativos.

Segundo moradores, incursões violentas da polícia atrás de drogas são comuns no cortiço.

Tristeza. Irmã do professor, Ana Cristina Nascimento, de 42 anos, disse que ele já havia comentado sobre a possibilidade de ser abordado por policiais. "Ele sempre dizia que nunca tentaria escapar da polícia, porque não devia nada. Não fumava, não bebia, jamais usou droga. Era um esportista." Amigos também ressaltaram suas qualidades. "Com o esporte, ele ajudou uma geração inteira de moleques a ficar fora das drogas. Era uma pessoa do bem", disse uma pessoa que pediu anonimato. O corpo de Nascimento será enterrado hoje no Cemitério da Vila Mariana.

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