Policiais espionaram secretário da Segurança

Eles obtiveram, por meio de suposta fraude, imagens de encontro de Ferreira Pinto com um jornalista; governador cobrou explicações de shopping

Marcelo Godoy, Renato Machado e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

11 Março 2011 | 00h00

O secretário da Segurança Pública, Antônio Ferreira Pinto, foi vítima de espionagem. Policiais são suspeitos de controlar os passos dele para saber com quem se encontrava. Eles obtiveram, por meio de suposta fraude, imagens de um encontro de Ferreira Pinto com um jornalista no Shopping Pátio Higienópolis. Para tanto, teriam induzido o shopping a entregar as imagens do circuito interno de TV, alegando que investigavam "uma ocorrência de outra natureza".

De acordo com o shopping, os policiais envolvidos na espionagem são de São Paulo. A Secretaria da Segurança Pública informou, por meio de nota oficial, considerar "grave" a obtenção e divulgação das imagens. "Não por seu conteúdo, mas pelo forte indício de que grupos criminosos as utilizaram para espionar o primeiro escalão do Estado e o trabalho legítimo da imprensa." A cúpula da Secretaria desconfia que policiais corruptos estariam por trás de uma campanha para derrubar Ferreira Pinto.

O governador Geraldo Alckmin afirmou ontem que o shopping deve explicar a cessão do vídeo, porque "ninguém do governo, autorizado pelo governo, solicitou a fita". "Se alguém usou o nome do governo, o shopping não deveria ter fornecido."

O shopping informou anteontem que entregou as imagens para "órgãos oficiais, por solicitação dos mesmos", mas não especificou que órgãos oficiais ou a qual autoridade entregou o vídeo. Ontem, informou que está "à disposição das autoridades constituídas, como sempre fez, para qualquer esclarecimento".

O objetivo de quem obteve as imagens do encontro no shopping era vincular o secretário Ferreira Pinto à divulgação da notícia de que o sociólogo Túlio Kahn, ex-coordenador de Análise e Planejamento (CAP) da secretaria, venderia dados tratados como sigilosos pelo governo. Ferreira Pinto se encontrou com um repórter do jornal Folha de S. Paulo. Dias depois, o jornal publicou reportagem sobre a atuação de Kahn.

Internet. Sites mantidos por policiais civis afirmaram que a divulgação da notícia contra Kahn faz parte de suposta briga entre Ferreira Pinto e o secretário de Logística e Transporte, Saulo de Abreu Castro Filho. Um desses sites divulgou o vídeo.

Antes que o vídeo fosse divulgado, porém, uma pessoa que se identificou como o ex-delegado de polícia Paulo Sérgio Oppido Fleury dizia ter cópia das imagens e ameaçava divulgá-las nos sites. Filho do delegado Sérgio Paranhos Fleury, símbolo da repressão durante a ditadura militar, ele foi demitido da polícia por Ferreira Pinto - acusado de crimes como suposto desvio de mercadorias apreendidas.

O ex-delegado nega as acusações e diz ser vítima de perseguição do secretário. O Estado procurou Fleury e seu advogado, Jorge Henrique Monteiro Martins, mas não os encontrou. Nos sites, pessoas que se identificam como policiais exigem a saída de Ferreira Pinto da secretaria. Durante sua gestão, o número de inquéritos abertos pela Corregedoria da Polícia Civil para apurar corrupção cresceu 35%.

Ao Estado, o secretário confirmou o encontro com o jornalista no shopping e disse que tratou do caso que envolvia uma escrivã de polícia despida por corregedores durante uma revista - o caso provocou a queda da direção da Corregedoria da Polícia Civil.

Ferreira se mostrou indignado contra o que considera uma ação de grupos criminosos. Em texto divulgado ontem, a Folha de S. Paulo informou lamentar "que imagens colhidas no circuito interno de um shopping tenham sido utilizadas na tentativa de coibir o trabalho da imprensa".

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