Policiais civis radicalizam greve nas delegacias de São Paulo

Secretaria de Segurança Pública não se manifesta sobre situação da greve e confronto entre policiais

Mônica Aquino, do estadao.com.br,

17 de outubro de 2008 | 12h19

Os policiais civis vão radicalizar a greve nas delegacias do Estado de São Paulo. A situação se intensificou depois do confronto entre policiais civis e militares na tarde da quinta-feira, 16, quando pelo menos 32 pessoas ficaram feridas nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes. Até às 12 horas desta sexta, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo não havia se manifestado sobre a situação da greve e o confronto das polícias. O secretário Ronaldo Augusto Bretas Marzagão não se manifestou.   Veja também: Após confronto com PMs, civis se reúnem para analisar greve Confronto entre policiais deixou pelo menos 32 feridos Policiais civis do País podem parar em apoio à categoria em SP Futuro da greve preocupa e divide sindicatos e associações Erro de planejamento piorou situação do conflito entre polícias  Serra culpa CUT e PT por confronto entre polícias  'Serra joga nas nossas costas problema que é dele', diz PT-SP  'Teve policial atirando contra o Palácio dos Bandeirantes', conta o jornalista Marcelo Godoy   Galeria de fotos do conflito no Morumbi Policiais civis e militares entram em confronto em SP; assista  'PM tem obrigação de manter a ordem', diz José Serra  Manifestação de Polícia Civil foi feita por "minoria", diz Marrey Paulo Pereira da Silva diz que José Serra não está aberto ao diálogo  Antes da manifestação, Serra disse que 'não negocia com greve' Todas as notícias sobre a greve       "Vamos radicalizar a greve da polícia civil", afirmou João Batista Rebouças, presidente do Sindicato dos Investigadores da Polícia de São Paulo. Segundo ele, as delegacias que não haviam aderido a greve durante um mês de paralisação resolveram se unir ao movimento. Rebouças afirmou que policiais civis de todo o País estão se mobilizando para um protesto na próxima semana. "Vamos protestar contra a intransigência do governador José Serra", disse.   Em relação à reunião marcada para a tarde desta sexta, Rebouças afirmou que no encontro serão decididas as novas diretrizes da greve e das negociações com o governo do Estado. Centrais sindicais e sindicatos da Polícia Civil marcaram uma reunião para analisar o futuro da greve. A paralisação começou há mais de um mês, no dia 16 de setembro.   Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical, afirmou nesta sexta que a entidade pretende marcar uma conversa com Lula para tratar da crise. O presidente estará em São Paulo no sábado. Nesta sexta, Lula afirmou que o confronto é "deplorável". Enquanto isso, o governador José Serra criticou o PT, a CUT e os sindicalista, afirmando que o movimento grevista havia se tornado político. As afirmações foram feitas após o conflito.   A reunião desta sexta está marcada para às 14 horas, e estarão reunidos representantes do Sindicato dos Investigadores da Polícia do Estado de São Paulo, do sindicato dos policiais civis e representantes das centrais sindicais. O encontro será na sede do Sindicato dos Policiais Civis, na Av. Casper Libero, 58, no centro de São Paulo.   Crise   Até a noite de quinta, os líderes das associações e sindicatos de policiais de São Paulo não sabiam de que forma retomar a negociação com o Estado. "Aconteceu o que mais temíamos. Eu havia alertado o senadores Sérgio Guerra (PSDB), Aloízio Mercadante (PT) e Romeu Tuma (PTB), na quarta, de que era preciso negociar. Estamos em uma crise profunda. Não sabemos ainda as conseqüências que ela terá", afirmou o delegado Sérgio Marcos Roque, presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo, a maior e até então mais representativa entidade da Polícia Civil.   Tido como um líder moderado, Roque se transformou em um dos últimos interlocutores que o governo tinha entre as entidades da Polícia Civil. Assim é que, no momento em que os integrantes dos sindicatos da polícia organizavam a marcha ao palácio, Roque se reunia com dois deputados estaduais do PSDB e um do PV, todos da base do governador José Serra. Entre eles estava Mauro Bragato. A idéia era buscar a mediação para resolver a crise.   O problema era todo em torno do índice de reajuste dos salários. O governo alegou que uma nova proposta, com dois dígitos de reajuste neste ano, teria um valor proibitivo: R$ 200 milhões. Em outras palavras: isso é quanto custaria aumentar a proposta do Estado de reajuste de 6,2% para, no mínimo, 10%.   Parece pouco para quem gasta R$ 7 bilhões com a folha de pagamentos da Segurança Pública, mas o secretário Sidney Beraldo (Gestão Pública) afirmou ao Estado: "Chegamos ao limite. Estamos diante de uma crise que poderá trazer conseqüências à arrecadação do Estado no próximo ano."   Procurada, a Secretaria de Gestão Pública reafirmou, por meio de nota, as propostas que fez à categoria. O governo propõe aumento linear de 6,2% a policiais civis da ativa, aposentados e pensionistas; aposentadoria especial; reestruturação das carreiras com a eliminação da 5ª classe e a transformação da 4ª classe em estágio probatório; e a fixação de intervalos salariais de 10,5% entre as classes. O governo diz ainda que quer reajustar em 38% o salário base dos delegados.   Os delegados consideram ridícula a proposta, pois o reajuste de 38% só seria dado a poucas dezenas de policiais que ganham o piso e estão em estágio probatório. O presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado (Sindpesp), José Leal, em entrevista ao Estado, contestou. "O governo não procurou os policiais para discutir a questão da reestruturação", diz. Segundo ele, os profissionais perdem os adicionais quando se aposentam. Portanto, uma decisão que só favoreça quem está na ativa não agrada.   Beraldo, por sua vez, tentava mostrar aos líderes moderados das associações da polícia que o governo não é intransigente. "Nossa proposta inicial significava um gasto de R$ 300 milhões. Fizemos um enorme esforço e, com a aposentadoria especial, as promoções e o aumento de 6,2%, chegamos a R$ 600 milhões." Agora, porém, não há consenso. Os líderes mais moderados, ligados às associações, ainda procuram o que fazer. Há sindicalistas que defendem que a greve seja retomada com mais força. Outros propõem uma "trégua". A maioria considera que um próximo passo, para encerrar o impasse, venha do governo.   Cronologia   20/7/2008: A decisão - A categoria resolve, em assembléia, iniciar greve no dia 13 de agosto. Pede reestruturação total da carreira, reajuste salarial de 200%, aposentadoria especial e o direito de eleger diretamente o delegado-geral   13/8: Recuo Estratégico - Com adesão de 40% da categoria, começa greve inédita na história da Polícia Civil  paulista. A paralisação só dura uma manhã. Governo e sindicalistas aceitam proposta do TRT   21/8: Impasse - Em audiência de reconciliação, policiais rejeitam a proposta do governo: extinção da 5.ª classe e elevação do piso salarial da categoria em 27%   5/9: Rejeição - Governo e policiais civis rejeitam proposta do TRT, de 12% de aumento em 2009 e 10% em 2010   7/9: Vaias ao governador - O governador José Serra é vaiado em desfile   9/9: Operação-padrão - Polícia inicia operação-padrão   16/9: Segunda paralisação - Polícia Civil pára pela segunda vez e agora pede aumento de 29% até 2010. Governo oferece 27,9% para o piso salarial dos delegados   17/9: Sob pressão - Governo endurece e afirma que só negocia quando acabar a greve. Aumenta adesão ao movimento   6/10: Trégua - Greve é suspensa, para ser retomada no dia 10, caso não avancem as negociações   16/10: Conflito - Ato na frente do Palácio dos Bandeirantes acaba em pancadaria e deixa pelo menos 24 feridos   (Com informações de Marcelo Godoy, Mônica Cardoso e Pedro Venceslau, de O Estado de S. Paulo, e Solange Spigliatti, do estadao.com.br)

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