Gabriela Biló / Estadão
Gabriela Biló / Estadão

Polícia faz nova ação na Cracolândia, prende traficantes, mas fluxo retorna a praça

PM e Prefeitura participaram de ação na Praça Princesa Isabel, onde integrantes do antigo fluxo se concentravam há três semanas; horas depois, usuários retornaram ao local

Fabio Leite e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2017 | 06h45
Atualizado 11 de junho de 2017 | 16h14

SÃO PAULO - Três semanas depois de uma megaoperação ter prendido traficantes de drogas e espalhado viciados da Cracolândia pelas ruas do centro de São Paulo, a polícia voltou a agir na região. Neste domingo, 11, uma ação conjunta da Polícia Militar e da Prefeitura de São Paulo se concentrou desde as 6 horas da manhã na Praça Princesa Isabel, que virou o novo endereço dos dependentes químicos que se concentravam, até o mês passado, no antigo “fluxo”, a 500 metros dali. Algumas horas após a ação, no entanto, os usuários voltaram a ocupar o local.

O objetivo principal era expulsar os usuários da região – que chegavam a 900 durante a noite –, retirar as tendas e barracas usadas pelo tráfico e tentar encaminhar os usuários para tratamento. Três pessoas foram detidas, sendo dois traficantes e um usuário acusado de agredir um jornalista. Denilson Santana dos Santos, de 23 anos, e Elenilson Lopes da Silva, de 39, carregavam 774 gramas de crack, R$ 1.596 e uma balança de precisão.

Eles foram autuados por tráfico de drogas no Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico  (Denarc), onde os investigadores identificaram que Denilson já tinha passagem pela polícia por furto e Elenilson, por roubo. A ação contou com 550 policiais militares.

Policiais militares da Força Tática e do Choque começaram a sitiar a praça por volta das 5h. Assim que perceberam a movimentação policial, muitos usuários de drogas e traficantes da nova Cracolândia começaram a deixar a praça em direção à estação da Luz e ao Elevado João Goulart, o Minhocão, abandonando as inúmeras barracas montadas ao longo de três semanas no novo ponto de venda e consumo de crack.

Viaturas da PM já bloqueavam as avenidas Rio Branco e Duque de Caxias quando o helicóptero de corporação sobrevoou pela primeira vez a região, às 6h24. O barulho soou como mais um alarme de retirada dos acampados e mais viciados deixaram o reduto. Fogueiras que tinham sido acesas durante a noite para ajudar a espantar o frio – a temperatura média na capital esta noite foi de 8,7°C –, foram alimentadas pelos dependentes. O fogo atingiu barracos e acabou se espalhando. Uma nuvem preta cobriu um cenário de lixo e miséria. A PM acionou o Corpo de Bombeiros e homens do Choque começaram a entrar na Praça.

Os policiais militares percorreram toda a extensão da praça em cerca de 30 minutos. Homens da Tropa de Choque, com escudos, avançaram sem resistência das pessoas que ainda estavam no local. Havia registro de pelo menos um ferido. Um dependente acordou no meio do fogo na praça e ficou com queimaduras no braço. Foi levado ao centro psicossocial (CAPS) do programa Redenção, mas o plantonista da manhã não havia conseguido chegar por causa do cerco policial.

O alojamento para acolhimento instalado pela Prefeitura em contêineres estava com baixa demanda, os dependentes não estavam indo para lá após a operação. Só quem já conhecia a estrutura e pernoitou no local estava por ali logo depois que os policiais entraram na praça.

Um pouco antes das 9h, o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria, ambos do PSDB, chegaram ao local e disseram à imprensa que o fluxo não voltaria mais para o antigo quadrilátero da Cracolândia. O prefeito tinha antecipado no sábado que a ação policial iria continuar depois que foi constatado que os traficantes voltaram a atuar na região vendendo, além de crack, também heroína, cocaína e ecstasy. Neste domingo, os dois defenderam que a dispersão vai facilitar a abordagem dos dependentes químicos pelos agentes sociais e dificultar a ação de traficantes que abastecem o fluxo. 

“Esse é um trabalho permanente, não vai resolver do dia para noite. Por que não haver concentração? Porque quando tem concentração você facilita a vida do traficante, atrai pessoas e dificulta a abordagem”, afirmou Alckmin, que não descarta novas ações da polícia para evitar novos acampamentos de viciados na região. “Não tem uma data fatal, dizer que acabou.”

Quase ao mesmo tempo, porém, dezenas de pessoas que estavam na Praça Princesa Isabel antes da operação voltaram a se concentrar na Rua Helvetia, entre a Avenida Rio Branco e a Alameda Barão de Piracicaba, parte do quadrilátero original. Movimento semelhante havia ocorrido um dia após a operação do dia 21 de maio, quando um grupo que havia migrado da Cracolândia para a praça voltou à Helvétia após ter sido dispersado pela polícia. 

Na sequência, a PM mais uma vez os expulsou, fazendo com que retornassem para a praça, onde permaneciam desde então. Neste domingo, policiais estão posicionados na Barão de Piracicaba e não há informações se o grupo poderá permanecer no local.

Moradores do entorno da praça elogiaram a ação. "Foi uma maravilha, voltou a reinar a paz e devolveu a vida à Praça. Vinha todo o dia aqui assear com minha cachorra e eles tinham acabado com tudo", disse o vidraceiro João Alberto Lima, de 57 anos, vizinho da Praça Princesa Isabel há 36 anos.

"Era uma situação terrível. Hoje é outra visão. Mas acho que esse problema da Cracolândia ainda está muito longe de ser resolvido. A insegurança continua no bairro", disse o analista de tecnologia Elmar Bischoff, de 50 anos, que já decidiu se mudar com a familia para Jundiaí por causa da violência na região. "Minha esposa não tem mais coragem de sair de casa com minha filha".

Para lembrar. No dia 21 de maio, a operação, que contou com cerca de 900 agentes, foi liderada pelo Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil paulista. Na oportunidade, a investigação delineou o funcionamento do tráfico no fluxo, com atuação de membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção que lucrava e controlava a venda de drogas na área. A mobilização resultou na prisão de 38 pessoas, entre eles suspeitos flagrados em imagens de câmeras de segurança portando armas e realizando disparos contra policiais.

No domingo, 21, e na segunda, 22, os frequentadores da Cracolândia se espalharam por diversos pontos da região central. A Praça Princesa Isabel acabou como reduto após a Polícia Militar tentar dispersar um grupo da área e vê-los retornar para as imediações da Alameda Dino Bueno e Rua Helvetia, que integrava o ponto original do fluxo. Após expulsar cerca de 40 pessoas da Alameda, os policiais informaram que não tentaria novamente retirá-los da praça, onde desde então a quantidade de usuários só aumentou.

Nas últimas semanas, o número de barracas também havia aumentado, apesar da vigilância próxima da Guarda Civil Metropolitana e da Polícia Militar. Investigadores já haviam identificado o retorno de entrega de drogas na praça, principalmente por homens de bicicleta. A 500 metros da praça, a Prefeitura instalou contêneires como parte do aparato de atendimento. Com capacidade para 150 dependentes, a estrutura começou a funcionar na quinta-feira passada, porém contava com pouca adesão voluntária dos usuários.

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