Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Polícia só recupera 6,6% dos celulares roubados neste ano no Estado de SP

Entre janeiro e setembro, 149 mil aparelhos foram levados por bandidos; especialistas apontam facilidade de ser escondido, transportado e revendido

Paulo Batistella e Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2016 | 06h00

SÃO PAULO - A cada cem celulares roubados no Estado de São Paulo neste ano, menos de sete foram recuperados pelas polícias, ou 6,6%. Por causa da facilidade de ser escondido, transportado e revendido ilegalmente, o aparelho tem se tornado, cada vez mais, o principal alvo da ação de bandidos – e ajuda a alavancar os índices de crimes contra o patrimônio no Estado.

O celular está presente em 61,4% das ocorrências notificadas no Perfil de Roubos da Secretaria da Segurança Pública (SSP). Isso quer dizer que ao menos 149 mil roubos – crime mediante ameaça ou agressão – de aparelhos foram registrados no Estado entre janeiro e setembro.

Por outro lado, o número de aparelhos recuperados é de 9.848, de acordo com dados obtidos pelo Estado via Lei de Acesso à Informação (LAI). A polícia também recuperou outros 5.003 aparelhos provenientes de furto – crime de menor potencial ofensivo. Na maioria das vezes, os celulares são recuperados durante abordagens policiais, quando o aparelho ainda está com o bandido.

Se contabilizados juntos, aparelhos furtados e roubados e depois recuperados somam 9,96%. A SSP, no entanto, informa que esse índice chega a 16%. Questionada nesta terça-feira, 15, a pasta não explicou a diferença.

Neste ano, os assaltos em geral atingiram média de 26.972 casos por mês, a maior já registrada. Para especialistas, no entanto, o número real de ocorrências pode chegar a até o dobro, uma vez que parte das vítimas opta por não fazer o registro do boletim de ocorrência.

Boletim. Assaltado há cerca de um mês, o estudante Gabriel Grilo, de 23 anos, não espera resgatar o celular, cuja última prestação ainda não foi paga. “Já comprei outro e estou correndo atrás dos documentos”, diz. Na ocasião, os ladrões também levaram sua mochila e carteira.

O jovem foi roubado por dois adolescentes em um ponto de ônibus perto da Universidade de São Paulo (USP), na zona oeste da capital. “Foi a quarta vez que fui assaltado em São Paulo, então já me acostumei”, afirma. Ele só registrou boletim de ocorrência do último assalto por causa dos documentos.

O analista Fernando Honorato, de 23 anos, afirma que só registrou o boletim de ocorrência por causa do seguro do celular. “Nem passou pela minha cabeça a possibilidade de recuperar o aparelho”, diz. Em oito anos, ele foi assaltado três vezes: em nenhuma conseguiu ter de volta os pertences. Vítima de assalto na zona leste, a publicitária Raisa Sutecas, de 24 anos, também não pensou no aparelho. “Fiz o BO por causa dos documentos. Os próprios policiais disseram que eu não iria recuperar o celular.” 

Receptação. Segundo o coronel José Vicente da Silva, especialista em segurança, o roubo de celular tem como principal motivador o comércio ilegal. Para ele, as Polícias Civil e Militar devem atuar em frentes de trabalho e de forma conjunta. “É preciso descobrir locais de maior incidência do crime e, a partir daí, elaborar mapas e identificar suspeitos”, afirma.

Outra ação, diz o especialista, é combater a receptação. “Quando essa modalidade de roubo começa a subir muito é um sinal de que esse trabalho não está sendo feito pelas polícias com a devida destreza.”

Especialistas afirmam que o celular é um objeto de interesse dos criminosos porque é fácil de tomar, esconder e transportar, além de movimentar um comércio lucrativo. “Existe mercado, senão não haveria tantos roubos”, diz o cientista político Guaracy Mingardi. “O aparelho repressivo do Estado deve combater a receptação.”

Prevenção. Em nota, a SSP informa que a Polícia Militar considera a dinâmica criminal na hora de orientar o policiamento preventivo e que diariamente são feitos flagrantes de apreensão. “As polícias prenderam, neste ano, 105.502 pessoas em flagrante no Estado, aumento de 5,2% em relação aos primeiros nove meses de 2015.”

A SSP diz ainda que a Polícia Civil criou um banco de dados que possibilita cruzar informação de celulares com os registros de furto e roubo. Ainda de acordo com a pasta, é preciso “conscientizar a população” a registrar as ocorrências, já que os BOs servem como base para planejar o patrulhamento.

Delegacias. Em 2015, a Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo abriu inquérito para apurar a conduta de delegacias da capital que se recusaram a registrar boletim de ocorrência envolvendo celular para casos em que a vítima não sabia informar o Imei do aparelho. As investigações, no entanto, foram arquivadas, segundo informa a Secretaria da Segurança Pública (SSP). Em nota, a pasta afirma que os casos foram apurados, mas “não revelaram qualquer indício de irregularidade”.

O inquérito havia sido instaurado após reportagem do Estado, publicada em julho do ano passado. Na época, 18 delegacias de São Paulo haviam sido contatadas. Em apenas três delas policiais disseram ser possível fazer o BO sem o número de série do celular, contrariando a indicação da secretaria de que seria possível registrar qualquer caso.

Na reportagem, uma estudante de 27 anos relatou que teve o celular levado por um criminoso dentro de um supermercado em Santa Cecília, na região central, mas não conseguiu fazer o registro do boletim no 77º Distrito Policial (Santa Cecília). Na sala de atendimento do 1º DP (Sé), também no centro, a reportagem flagrou e fotografou um cartaz fixado na parede: “Furto e/ou roubo de celulares (...) só serão registrados com os IMEIs dos respectivos celulares”.

O número de série do celular pode ser obtido na nota fiscal ou na caixa do aparelho. Outra forma de saber o Imei é digitar o código *#06# no teclado do aparelho. O número será exibido automaticamente. 

Número de série. Anunciado pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) como medida estratégica para reduzir o número de furtos e roubos de celular, o registro no boletim de ocorrência do Imei, número de série que identifica o aparelho, não tem conseguido impedir o aumento desses crimes. A expectativa da Secretaria da Segurança Pública (SSP) era que, com a Polícia Civil usando o código para bloquear os aparelhos, os criminosos tivessem menos interesse em subtrair celulares.

A medida foi anunciada pelo então secretário Alexandre de Moraes, hoje ministro da Justiça e Cidadania, em fevereiro de 2015. Na época, o celular estava entre os objetos roubados em 55,65% das ocorrência no Estado, segundo o Perfil de Roubo da SSP. Esse índice caiu nos dois primeiros meses após a medida, mas, depois disso, vem subindo gradativamente. Em setembro deste ano, atingiu a marca recorde de 64,8%.

“Logo após a decisão, muita gente deixou de registrar o BO porque não sabia o Imei. Não foi uma ação que tornou o bandido mais preocupado imediatamente”, afirma o coronel José Vicente da Silva.

Na visão do cientista político Guaracy Mingardi, a medida foi ineficiente e contribuiu para a subnotificação. “Logo após a portaria, o índice caiu artificialmente. Com o Imei, a polícia não vai atrás de todos os celulares. Não funcionou para nada.” 

Já de acordo com o sociólogo Túlio Kahn, ex-analista da SSP, ainda não é possível medir com precisão a eficácia da medida. “Sem ela, o índice poderia ter subido ainda mais”, afirma.

A SSP afirma que as delegacias registram as ocorrências mesmo sem o Imei. Segundo a pasta, apenas 42% dos aparelhos roubados tiveram o código informado, entre janeiro e setembro. Na internet, só é possível fazer o BO com o número.

“O proprietário pode fazer o bloqueio com a operadora”, diz a pasta. Segundo a SSP, no entanto, quando o Imei deixa de ser informado não é possível identificar o aparelho como proveniente de furto ou roubo.

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