JF DIORIO /ESTADÃO
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Polícia prende suspeito de liderar sequestro da sogra do chefe da F1

Terceiro detido acusado de participação no crime, Jorge Eurico da Silva é piloto de helicóptero e trabalhou para Bernie Ecclestone em eventos ligados à Fórmula 1

Alexandre Hisayasu e Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2016 | 10h37

SÃO PAULO - A Polícia Civil prendeu nesta segunda-feira, 1º, o homem apontado como mentor do sequestro de Aparecida Schunk Flosi Palmeira, de 67 anos, sogra do chefe da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, de 85. Jorge Eurico da Silva Faria, conhecido como comandante Faria, é piloto de helicóptero e trabalhou para Ecclestone em eventos da Fórmula 1 quando o empresário vinha ao Brasil. 

A mulher foi sequestrada em casa, em Interlagos, na zona sul de São Paulo, no dia 22 de julho, e ficou nove dias no cativeiro, até ser libertada pela polícia, em um imóvel em Cotia, na Grande São Paulo. Os bandidos pediram inicialmente € 168 milhões de resgate e mandaram seis e-mails para a família exigindo que o dinheiro fosse colocado em sacos divididos em três helicópteros. O valor não foi pago. 

Faria foi preso em casa, em um condomínio de luxo na Granja Viana, também em Cotia, às 4h30, e autuado em flagrante por extorsão mediante sequestro. Segundo a polícia, ele telefonou e recebeu vários telefonemas dos dois homens responsáveis por sequestrar a vítima depois de invadir a casa dela se passando por entregadores de móveis. A dupla, Vitor Oliveira Amorim, de 19 anos, e Davi Vicente Azevedo, de 23, foi presa na noite de domingo.

Na Divisão Antissequestro (DAS), Amorim afirmou que participou de três reuniões com o piloto durante o sequestro de Aparecida, que é mãe da advogada Fabiana Ecclestone, de 38 anos, casada com o chefe da Fórmula 1 desde 2012. Em um dos encontros ficou acertado que o piloto pagaria R$ 20 mil para cada um dos bandidos. Na saída da delegacia, Faria negou as acusações à imprensa. “Não tenho nada a ver com isso. Nunca vi esses dois.” 

O governador declarou que vinha acompanhando as investigações sobre o sequestro de Aparecida pessoalmente. "Mas é preciso ter paciência, porque sequestro é um crime difícil de ser investigado."

Já o secretário estadual da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, disse que o mentor e os dois sequestradores estão presos e não descartou a participação de outros criminosos no crime. "O que facilitou a prisão do mentor foi que um dos sequestradores presos delatou o líder", disse. Além disso, os policiais encontraram várias ligações telefônicas de Silva aos outros dois homens presos e dos dois a ele.

Furto. Ele afirmou também que sempre teve muito carinho pela família de Ecclestone - é amigo da vítima no Facebook - e que estava morando fora do País. Segundo as investigações, porém, ele planejou o sequestro depois de ter sido demitido pela família há cerca de seis meses, após a descoberta de que o piloto era investigado pelo furto de uma aeronave.

No início do ano passado, ele foi indiciado pela Polícia Civil pelo furto de um helicóptero em junho de 2014, ocorrido no hangar da empresa Helicidade, no Jaguaré, na zona oeste. A aeronave foi encontrada abandonada e sem combustível em um matagal na cidade de Amparo, no interior paulista, onde Fabiana Ecclestone tem uma fazenda de café. Em abril de 2015, ele entrou com dois habeas corpus na Justiça para tentar trancar a investigação no 93.º DP (Jaguaré), mas os pedidos foram indeferidos. A reportagem contatou a advogada dele, Priscila Mendizabal, que não respondeu.

Português naturalizado brasileiro, Faria é piloto desde 1994 e dono de cinco empresas nos ramos de aviação, segurança e criação de cavalos. Ele presidiu a Associação Brasileira de Pilotos de Helicóptero (Abraphe) entre abril de 2014 e março de 2015, deixando o mandato antes do fim alegando razões pessoais e chegou a ser indicado para ser diretor de operações de aeronaves da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Quarto integrante. Segundo a polícia, um quarto participante do crime foi identificado e está sendo procurado. Ele foi chamado por Faria para contratar os dois bandidos que sequestraram a mulher. A polícia vai pedir a prisão temporária dele à Justiça e indiciá-lo no caso.

A polícia deve ainda ouvir a doméstica Maria de Fátima Oliveira, de 61 anos, que mora no sobrado em Cotia usado pelos bandidos como cativeiro. “Aconteceu na ponta do nosso nariz e a gente não viu nada”, disse. Ela havia alugado um dos quartos para os sequestradores. Neste ano, a polícia registrou 14 sequestros no Estado. Em nenhum o resgate foi pago.

2 perguntas para Wagner Giudice, ex-diretor da Divisão Antissequestro

1. O senhor assumiu a Divisão Antissequestro em 2001. Havia 300 sequestros por ano em São Paulo. Como combateu essa crise?

Quando chegamos à divisão havia três, quatro casos por dia. Tomamos uma decisão: convencer as famílias a não pagar o resgate. Fazê-las acreditar que a polícia ia encontrar a vítima e prender os bandidos. Tínhamos de mostrar aos criminosos que o sequestro era um crime de alto risco. Além disso, o efetivo policial cresceu e chegamos a ter 150 homens na divisão. 

2. Mas isso demorou para mudar. Em 2002, a polícia registrou recorde de sequestros. Havia o problema de convencer as famílias a prestar queixa do crime. Muitas pagavam o resgate e não avisavam a polícia. Quando isso mudou?

A primeira comemoração nossa foi quando passamos um dia sem sequestro. Aos poucos, as famílias perceberam que só com a prisão das quadrilhas elas não continuariam reféns dos bandidos. No primeiro ano, prendemos 1.355 sequestradores. Em 2008, apenas 2% do valor dos resgates pedidos foi efetivamente pago. Três em cada quatro sequestros terminavam sem pagamento e com a prisão dos criminosos. Os bandidos gastavam dinheiro com a manutenção de um cativeiro, não recebiam nada e iam para a cadeia. O crime se tornou um mau negócio. Só aventureiros se arriscavam. Deixei a divisão em 2010, mas esse trabalho permanece assim até hoje.

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