Polícia prende 11 pessoas por furto de energia no interior de SP

Bando fez com que concessionárias, como a CPFL Paulista, deixassem de arrecadar R$ 2 milhões no último ano

Roberto Alexandre - Especial para o Estado de S. Paulo,

21 Setembro 2012 | 20h34

ARAÇATUBA - Onze acusados de integrar uma quadrilha especializada em furto de energia foram presas nesta sexta-feira, 19, em uma operação realizada pela Polícia Civil em Araçatuba - a 530 km de São Paulo. O grupo lucrava cerca de R$ 400 mil por mês com as fraudes.

Segundo o delegado seccional de Araçatuba, Nelson Barbosa Filho, a quadrilha atuava em várias regiões do estado, contratada por empresas que desejavam diminuir o valor da conta de energia. O prejuízo ainda não foi contabilizado, mas levantamento inicial da polícia de Araçatuba indica que concessionárias, como a CPFL Paulista, por exemplo, deixaram de arrecadar, pelo menos, R$ 2 milhões somente no último ano.

A investigação começou em março deste após a apreensão de 80 armas e centenas de munições na casa do eletricista Marco Girão, em um condomínio de alto padrão, em Araçatuba. A polícia apurou que o padrão de vida do acusado era considerado incompatível com a profissão declarada e passou a investigá-lo.

Esquema. Para fraudar relógios medidores de energia, o grupo usava uma espécie de fábrica para falsificar lacres da concessionária CPFL Paulista. Com a fraude, conforme a polícia, era possível reduzir entre 70% e 80% o valor da conta de luz. "Uma empresa de grande porte que gastava R$ 400 mil de energia em situação normal, com a fraude, acabava pagando menos de R$ 100 mil", exemplifica o delegado seccional de Araçatuba.

O esquema era feito a partir da instalação de uma espécie de software no relógio medidor de energia. O equipamento deixava de registrar o consumo real. A polícia constatou que eletricistas contratados pelo grupo criminoso retiravam o equipamento um ou dois dias antes da leitura realizada pela companhia de energia. Os lacres falsos, idênticos aos verdadeiros, eram usados para que os funcionários não percebessem a fraude. O mesmo software era recolocado após a leitura oficial. Equipamentos usados para reduzir o consumo de energia foram apreendidos e encaminhados para perícia.

A polícia apreendeu formas e centenas de lacres falsos em uma empresa de Birigui. O dono, que teve a prisão temporária decretada, não foi encontrado e é considerado foragido.

De acordo com a polícia, a quadrilha era comandada pelo eletricista Marco Girão, que tem como hobby colecionar armas de fogo e munição. E foram essas armas que levaram a polícia até o perito criminal e diretor do Instituto de Criminalística (IC) de Araçatuba, Sadraque Cláudio, preso por porte ilegal de arma durante a operação.

Por meio de interceptações telefônicas, a polícia descobriu ligação entre o chefe da quadrilha e o diretor do IC. Conforme a investigação, depois da apreensão das armas na casa de Marco Girão, o perito teria recebido R$ 50 mil para emitir laudo constando que silenciadores e munição antiaérea, apreendidos na ocasião, não tinham nenhuma eficácia e, portanto, seriam objetos meramente decorativos. E esse era justamente o argumento da defesa de Girão no inquérito aberto após a apreensão das armas e que ainda está em andamento.

A Corregedoria da Polícia Civil cumpriu mandado de busca e apreensão na casa do perito e no gabinete dele, na sede do IC de Araçatuba, onde foram encontrados três revólveres, sem registro. Sadraque foi preso em flagrante por porte ilegal de arma. Ele pagou fiança arbitrada em 3 salários mínimos (R$ 1,8 mil) e vai responder inquérito em liberdade. Ele disse que iria se pronunciar apenas em juízo. O perito não foi encontrado pela reportagem para comentar o assunto. O telefone celular dele estava na caixa postal durante toda a tarde e no começo da noite. Conforme a polícia, o funcionário público deve responder a processo administrativo e poderá até ser exonerado do cargo.

Um advogado que defende Marco Girão no caso das armas apreendidas em março também foi preso por porte ilegal de arma durante a operação em Araçatuba. Os policiais encontraram cinco armas no escritório dele, uma deles sem registro. Ele pagou fiança de 5 salários mínimos (R$ 3,1 mil) para responder pelo crime em liberdade. De acordo com a investigação da polícia, o advogado é suspeito de intermediar o contato entre o cliente dele o perito para emissão do laudo falso sobre a suposta ineficácia dos silenciadores e das munições anti aéreas apreendidos na casa do eletricista. A mulher, o pai e um irmão de Marco Girão também foram presos na operação. Além deles, um advogado e empresário de Bilac também foi preso. A polícia constatou que ele havia contratado a quadrilha para diminuir o consumo de energia da empresa de reciclagem que ele possui na cidade. Além disso, o empresário também indicava o grupo criminoso para outras empresas interessadas em praticar a fraude.

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