Polícia parou esquartejadora, mas não viu corpo

Carro de Elize Matsunaga foi multado por licenciamento vencido; ela obteve provas de que estava sendo traída 2 dias antes do crime

MARCELO GODOY, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h02

Elize Araújo Kitano Matsunaga, de 38 anos, foi multada por causa do licenciamento vencido de seu carro quando tentava se desfazer do corpo do marido, o empresário Marcos Kitano Matsunaga, de 42. A polícia desconfia que a prova do crime ainda estava nas malas quando Elize recebeu a multa.

Para os investigadores do caso, o fato é "irrelevante para a conclusão do inquérito", pois naquele momento Elize estava apenas cometendo uma infração administrativa e os policiais rodoviários não tinham como adivinhar o que havia nas malas ou suspeitar do crime. O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) tem as fotos do carro tiradas pelo radar.

Bacharel em Direito, Elize era casada desde 2009 com Marcos, com quem tinha uma filha de 1 ano. Ela matou Marcos com um tiro de pistola calibre 380 na noite do dia 19. O crime ocorreu no apartamento do casal, na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. Depois de atirar na cabeça do marido, ela arrastou o corpo da sala para um quarto, onde o manteve por dez horas antes de esquartejá-lo em um dos banheiros da casa no dia 20.

As câmeras do prédio registraram quando Elize saiu do apartamento com três malas e deixou a garagem em seu Pajero TR-4. Ela seguiu com o veículo em direção ao Paraná, onde mora sua família. No meio do caminho, arrependeu-se e decidiu voltar para São Paulo. Não queria deixar sozinha a filha do casal, que estava no apartamento com a babá.

Na Rodovia SP-127, na cidade de Capão Bonito, região sul do Estado, seu carro foi flagrado pelo radar. Ela foi abordada pelos policiais e, segundo policiais, estava tranquila. Foi multada e liberada. Mais tarde, abandonou as malas com o corpo do marido em Cotia, na Grande São Paulo. "Ela fez tudo sozinha", afirmou o delegado Jorge Carrasco, diretor do DHPP.

Certeza. Aos policiais que investigam o caso, Elize contou que teve certeza de que era traída pelo marido apenas dois dias antes do crime. Foi quando o detetive particular contratado por ela filmou um encontro de Marcos com sua amante, descrita por policiais como "uma bela mulher". Com a prova da infidelidade em seu poder, Elize decidiu pôr o marido contra a parede, iniciando a discussão que terminou no assassinato.

O flagra feito pelo detetive ocorreu no dia 17. Naquela data, Elize havia viajado para o Paraná a fim de visitar a mãe, que está se tratando de um câncer. Logo na primeira noite em que a mulher não estava em casa, o empresário foi surpreendido pelo detetive. Havia quase um ano que Elize desconfiava de que era traída. "Ela disse que era apaixonada pelo marido", disse o delegado.

Elize afirmou que percebia a indiferença de Marcos com ela. Ela afirmou que chegou a pensar várias vezes na separação - a paixão pelo marido e o medo de perder a guarda da filha teriam feito a acusada desistir. Em entrevista à TV Globo, o advogado de Elize, Luciano Santoro, disse que o marido ameaçava, em caso de divórcio, levar à Vara da Família, o passado da mulher para ficar com a criança. Elize trabalharia como garota de programa quando conheceu Marcos em 2004.

E-mail. Em sua confissão, Elize contou que tinha acesso à senha do e-mail do marido. E admitiu que a usou em uma tentativa de despistar a família e a polícia. Três dias depois da morte, ela enviou um e-mail como se fosse o marido para seu irmão. Disse que estava tudo bem - a família já havia prestado queixa à polícia por causa do sumiço de Marcos.

"Ela contou que passou o e-mail de seu computador e depois quebrou a máquina e a jogou no lixo", disse o delegado Mauro Gomes Dias, responsável pelo inquérito. O policial acha que será difícil encontrar o computador. Além de mandar o e-mail para o cunhado, Elize tentou despistar a polícia dizendo que Marcos havia deixado o apartamento após uma discussão. Ele afirmou que o marido teria levado roupas. Pouco depois, começou a espalhar a versão de que ele podia ter sido sequestrado.

A família de Marcos procurou a Divisão Antissequestro (DAS), que fez o rastreamento do telefone celular de Elize. O resultado mostrou que ela havia estado em Cotia no dia 20. Dias depois, quando a cabeça do empresário foi achada, o caso passou à Divisão de Homicídios - DAS e Homicídios pertencem ao DHPP. Ao ser confrontada com as provas da polícia, Elize confessou.

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