Polícia Pacificadora do Rio enfrenta escândalos

Polícia Pacificadora do Rio enfrenta escândalos

Três policiais encarregados de manter a paz nas favelas do Pavão-Pavãozinho foram presos: um por tentativa de roubo e dois ao invadir casa

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

28 Março 2010 | 00h00

Formada por principiantes na tentativa de oxigenar a corporação, as tropas da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Polícia Militar do Rio enfrentaram nas duas últimas semanas os primeiros escândalos envolvendo seus homens. Três policiais encarregados de manter a paz nas favelas do Pavão-Pavãozinho, na zona sul, foram presos.

Na madrugada do dia 18, o soldado da UPP dos Morros Pavão-Pavãozinho-Cantagalo, em Ipanema, Leandro da Cruz Cortez, de 27 anos, foi preso com três comparsas quando tentava roubar o caixa eletrônico de um banco em Niterói (região metropolitana). Três dias depois, outros dois policiais militares da mesma UPP e mais dois homens armados foram flagrados pulando o muro da casa de um homem para cobrar dívida pela venda de um carro.

Os nomes dos PMs que teriam invadido a casa não foram divulgados pela corporação. Eles estão presos no Batalhão Especial Prisional até o fim do inquérito,

O soldado Cortez foi reprovado na penúltima etapa do concurso para PM, a chamada Pesquisa Social, por ter um irmão preso por tráfico de drogas e amizades suspeitas, mas foi incorporado por decisão judicial. Dos 304 policiais na turma para as UPPs, 37 foram incorporados após ações judiciais e já estão trabalhando.

Acostumado a defender os candidatos rejeitados na corporação, o advogado Joelson da Silva Nascimento, de 40 anos, nega o envolvimento do cliente preso em flagrante no crime e alega que a Pesquisa Social da PM é discriminatória.

"Se o candidato mora em uma comunidade onde tem arma de fogo, o P-2 (policial da Inteligência da Polícia Militar) nem entra para apurar e o exclui na hora. O soldado Cortez tinha um irmão condenado por tráfico que ele visitou na cadeia e foi reprovado por esse motivo. Ninguém pode ser condenado pelo crime de outra pessoa. Isso não condiz com o edital e contraria a Constituição", afirmou Nascimento.

Infiltração. Chefe do Centro de Recrutamento e Seleção de Praças, o tenente-coronel Frederico Caldas nega. "Se o candidato mora em um local de risco, como uma comunidade com forte presença do tráfico de drogas, nós infiltramos os agentes para pesquisar a vida deles. Pode demorar um pouco, mas sempre investigamos todos, pois seria uma discriminação odiosa eliminar quem mora em comunidades", garantiu. A PM alegou que Cortez também tinha amizades suspeitas.

A etapa de Pesquisa Social do concurso é responsável por até 20% das reprovações de candidatos. Na última concorrência para entrar na corporação, dos 79 reprovados nessa etapa, 34 tinham antecedentes criminais por crimes como lesão corporal, porte ilegal de arma, ameaça, estelionato, transporte clandestino, exploração de máquina caça-níquel e desacato.

Investigação. Cem agentes do Serviço de Inteligência da PM investigam os candidatos. Os policiais entrevistam parentes, amigos e vizinhos. Dívidas financeiras e passagens por delegacias - até mesmo aquelas em que eles aparecem como vítimas - também são apuradas.

O tenente-coronel Frederico Caldas coleciona casos de candidatos que tentam driblar a investigação sobre "sanidade social", termo usado no site da corporação na internet. "Esta semana, o candidato comprou por R$ 400 um diploma do ensino médio, que é obrigatório. Preso, ele confessou. Achei muita ousadia e ingenuidade", afirmou Caldas. "Em outro concurso, um candidato se depilou da cabeça aos pés para não fazer o exame toxicológico (que é realizado por meio da análise dos cabelos ou dos pêlos do corpo) e ainda tentou subornar a técnica da empresa que faz os exames. Há candidatos que pedem para outros realizarem os exames; já surpreendemos pelo menos três."

Escolaridade. O oficial disse que o salário inicial de R$ 1 mil não favorece na hora de atrair um contingente escolarizado e espera que a Bolsa Olímpica do governo federal, que deve incorporar aos salários R$ 1,2 mil, atraia candidatos com nível de escolaridade elevado.

Para Ednilsa Ramos de Souza, pesquisadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli da Fiocruz e uma das autoras do livro Missão Prevenir e Proteger, sobre as condições de vida dos policiais do Rio, o problema não é em quais camadas sociais a PM recruta os agentes. "O importante é que os exames para se formar um policial deveriam ser mais rigorosos, mas a formação é insuficiente", disse a pesquisadora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.