Polícia pacificadora chega à zona norte do Rio

Em 15 dias, morros da Tijuca receberão ações do Bope, com o objetivo[br]de expulsar traficantes e estabelecer as UPPs

Pedro Dantas / RIO, O Estadao de S.Paulo

16 Março 2010 | 00h00

Nos próximos 15 dias, os morros da Tijuca, na zona norte do Rio, receberão as primeiras incursões do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) com o objetivo de expulsar os traficantes para a instalação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na região.

A ideia da cúpula da Secretaria de Segurança Pública é ocupar um morro por mês no bairro e adjacências até o fim do ano. Esta será a primeira experiência de uma UPP na zona norte. Todas as favelas da orla de Copacabana e Ipanema, região turística da zona sul carioca, já estão ocupadas.

Na Tijuca, poucos moradores falam sobre o assunto. "Acho que vai melhorar a nossa segurança. Trabalho aqui há dez anos e isso vai ser bom para o comércio. Nunca fui assaltado, mas os clientes não sentem segurança para vir aqui", disse um comerciante que trabalha em um dos acessos do Morro do Borel, um dos mais cotados para ter a UPP.

A violência nos acessos à favela deixou marcas. O hipermercado Carrefour fechou as portas e um colégio estaria de mudança para a Barra da Tijuca, bairro nobre da zona oeste.

O Borel é comandado por Isaías da Costa Rodrigues, um dos líderes do Comando Vermelho, preso há dois anos no Presídio Federal de Catanduvas (PR). A favela já foi palco de inúmeros tiroteios. A tensão entre moradores e policiais piorou quando, em 16 de abril de 2003, uma guarnição do 6º Batalhão de PM da Tijuca matou quatro moradores, episódio que ficou conhecido como "a chacina do Borel". Nenhum policial foi condenado.

Os 1.300 recrutas que ocuparão os morros da Tijuca se formam no dia 19 de abril e seguem direto para as novas UPPs. Em junho, mais 1.500 policiais estarão prontos para outras unidades. Além do Borel, os morros vizinhos como Indiana, Formiga, Chácara do Céu e Casa Branca, também serão ocupados. Em seguida, as UPPs devem chegar aos morros do Salgueiro, Turano e Chacrinha. E, por fim, aos morros dos Macacos e São João, em Vila Isabel, onde as facções Comando Vermelho e Amigos dos Amigos disputam há mais de uma década as bocas de fumo.

PARA ENTENDER

UPPs foram criadas para evitar "guerra"

A Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da PM do Rio foi criada para ocupar de forma ostensiva "territórios empobrecidos e dominados por traficantes", nas palavras do secretário de Segurança Pública do Estado, José Marino Beltrame. A prioridade é impedir o uso de armamentos de guerra pelos traficantes. O grande desafio é ganhar a confiança da população e levar às favelas os serviços que chegam normalmente ao asfalto.

A UPP que conta com o maior efetivo é a de Cidade de Deus, cujo número de policiais deve chegar a 376. A tropa mais modesta é a do Jardim Batam, em Realengo (zona oeste), que conta com 55 PMs. Armados com fuzis e pistolas, os policiais patrulham por 24 horas becos e acessos estratégicos da favela. O Bope e o Batalhão de Choque prestam apoio em caso de confronto. Os policiais da UPP são recém-formados. O objetivo é impedir a contaminação pela corrupção.

Serviços. Especialistas elogiam o esforço do governo, mas alertam que é necessário garantir o acesso da população aos demais serviços disponibilizados para quem não mora nos morros.

"A recuperação da soberania do Estado nas favelas é fundamental, porque nesses locais quem regulava a ordem era o autoritarismo da milícia ou do tráfico. No entanto, o Estado precisa oferecer alternativas aos serviços antes ilegais, pois há o risco de na ausência de legalidade a corrupção voltar", diz o professor da Universidade Federal Fluminense e fundador da ONG Observatório das Favelas, o geógrafo Jaílton de Souza e Lima.

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