Polícia Militar de SP 'expulsa' policiais experientes

Desmotivados, oficiais abrem mão de 20 anos de carreira e se dedicam a outras profissões

José Dacauaziliquá, do Jornal da Tarde,

29 de outubro de 2007 | 10h00

Baixo valor do salário, desmotivação e demora para se tornar oficial - em média, um soldado perde 20 anos para chegar a segundo-tenente (são onze postos). Esses são alguns dos motivos que têm feito vários oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo jogarem, em média, 20 anos de experiência fora para recomeçar em outra profissão - e muitas vezes em outro Estado.   Uma pesquisa obtida pelo Jornal da Tarde apontou que 48 oficiais deixaram a PM entre janeiro e outubro de 2007 para se dedicarem a uma outra profissão. O setor público é o que mais atrai oficiais. Em busca de melhores salários, esses profissionais deixaram a PM este ano para trabalhar em cargos como juiz substituto em Santos, delegado no Mato Grosso, agente de Terceira Classe da Polícia Federal no Pará e analista no Tribunal Eleitoral de Brasília.   O salário de um oficial no início de carreira (segundo-tenente), com o reajuste aprovado na semana passada pelo governador José Serra (PSDB), foi de R$ 3.507 para R$ 4.247 - na capital e cidades com mais de 500 mil habitantes. Mas são entre 15 a 20 anos para conquistar esta posição, ganhando entre R$ 2 mil a R$ 3 mil. Depois do segundo-tenente, vêm primeiro-tenente, capitão, major, tenente-coronel e, por fim, o coronel. De soldado a coronel, em média são 30 anos.   Até o atual secretário de Segurança Pública de São Paulo, Ronaldo Marzagão, é ex-oficial da PM. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública (SSP), Marzagão chegou ao posto de capitão e deixou a PM para se dedicar à carreira de promotor. Para o presidente da Associação dos Oficiais da Reserva da Polícia Militar, Hermes Bittencourt Cruz, governo e sociedade perdem com a evasão de oficiais. O governo, porque investe para a realização do treinamento do policial. E a sociedade, porque a polícia fica com menos oficiais capacitados para gerenciar a PM e combater o crime.   "O Estado investe na formação do oficial, que é bastante rigorosa, mas depois não propicia condições favoráveis para que ele permaneça na corporação. Faltam salário digno, equipamentos, viaturas, sistema de saúde e o principal, que é o reconhecimento do seu trabalho", diz o presidente da Associação dos Oficiais da Reserva da Polícia Militar, Hermes Bittencourt Cruz.   Para se tornar aspirante (8º posto da carreira), o subtenente tem de prestar o difícil vestibular da Fuvest para entrar na Academia do Barro Branco, onde vai entrar como aspirante e cursar quatro anos para se formar segundo-tenente (1ª patente de oficial). Durante o curso, o aspirante recebe um salário que fica próximo do pago ao soldado - cerca de R$ 2 mil. Este curso é aberto também a civis.   Desmotivação   "São profissionais que têm de abandonar um ideal de vida, uma vocação, porque não são reconhecidos pela corporação. Basta ver que, além dos oficiais que deixaram a PM nesses últimos tempos, atualmente 120 deles se inscreveram em um cursinho preparatório para o exame da prova de auditor fiscal, que tem um salário de início de carreira por volta de R$ 9 mil", conta o deputado estadual Major Sérgio Olímpio Gomes (PV).   Segundo oficiais que não quiseram se identificar, a‘‘fuga’’ só não é maior porque muitos não conseguem passar nas provas dos concursos públicos. Além disso, alguns não querem começar uma nova vida."Se você imagina que os oficiais não são valorizados pela PM, imagine como sentem-se os soldados e cabos que estão nas ruas combatendo a criminalidade", comenta o deputado estadual Conte Lopes (PTB). A PM não informou o número total de oficiais que já deixaram a corporação.   Salário inicial de PM nos Estados:   Acre Soldado R$ 1.700 Capitão R$ 5.360   Amazonas Soldado R$ 1.550 Capitão R$ 5.800   Bahia Soldado R$ 1.104 Capitão R$ 3.520   Espírito Santo Soldado R$ 1.470 Capitão R$ 5.700   Goiás Soldado R$ 1.569 Capitão R$ 8.740   Rio Grande do Sul Soldado R$ 1.514 Capitão R$ 4.550   Santa Catarina Soldado R$ 1.930 Capitão R$ 7.800   São Paulo Soldado R$ 1.999,32 Capitão R$ 6.184,25   Tocantins Soldado R$ 1.280 Capitão R$ 4.200   Fonte: Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais

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