Polícia mata brasileiro na Austrália

Estudante de 21 anos fugia de seis agentes quando foi derrubado por arma de eletrochoque; vítima estaria desarmada e imobilizada

SYDNEY, O Estado de S.Paulo

20 Março 2012 | 03h02

O estudante brasileiro Roberto Laudisio Curti, de 21 anos, foi morto, às 5h30 de anteontem (horário local), no centro de Sydney, na Austrália, após uma perseguição policial. Cercado por seis agentes, ele foi alvo de pelo menos quatro golpes de uma arma Taser (pistola de eletrochoque). A necropsia só deverá ser concluída hoje, mas já se investiga se houve excesso por parte das forças policiais.

Segundo informou o jornal The Sydney Morning Herald, o brasileiro seria suspeito de um roubo em uma loja de conveniência, 30 minutos antes - um pacote de biscoitos teria sido furtado. Amigos disseram que o jovem - ex-estudante da PUC e da FAAP de São Paulo, que estaria aprendendo inglês em uma escola em Bondi, na periferia de Sydney - foi confundido com outro suspeito.

Testemunhas que estavam na rua, no horário do acidente, relataram que o brasileiro estava sem camisa e mal arrumado durante a perseguição. "Parecia apenas bêbado e ele tentava correr, mas suas calças estavam caindo", relatou uma delas.

Os policiais conseguiram derrubar o jovem na frente de um café na Pitt Street e logo na sequência o acertaram com um golpe da arma de eletrochoque - como também mostram as imagens do circuito interno da loja, divulgadas ontem pela TV australiana. "Ele apenas gritava por socorro, imobilizado pelos policiais. Foi aí que ouvi três ou quatro disparos a mais", relatou outra testemunha. Um dos disparos teria ocorrido quando o jovem já estaria desmaiado.

A polícia informou que os exames toxicológicos e os demais testes da perícia devem ser concluídos hoje. Também destacou que já havia entrado em contato com a família de Curti no Brasil. Mas a avó da vítima, Eurydice Seabra Laudisio, ficou sabendo do caso somente pela imprensa, conforme informou uma das primas dela, Silvia Laudisio.

Segundo Silvia, o estudante morava com a avó desde que a mãe, Dora Laudisio de Lucca, morreu de câncer, em 2002. "Ela me disse que um dos tios dele está indo amanhã (hoje) para a Austrália para resolver as coisas. Foi uma coisa bárbara."

O Estado entrou em contato com o Itamaraty, que informou estar acompanhando o caso. Já o governo australiano informou que só vai se pronunciar depois das investigações.

Repercussão. Há suspeita de que a diretriz para uso da chamada arma não-letal pode ter sido quebrada. Sua ação só é incentivada "quando há confronto ou resistência violenta ou ainda risco iminente ao agente policial". Segundo as testemunhas, não foi isso o que aconteceu.

A morte do rapaz ganhou destaque na mídia e exigiu até uma reação do premiê australiano, Barry O'Farrell, e do ministro da Justiça, Michael Gallacher, em defesa do uso de Taser pelas forças policiais. "Há uma preocupação agora porque uma pessoa morreu", afirmou Gallacher. "No entanto, devemos esperar a investigação e aguardar os resultados do legista."

Desde sua adoção pela polícia de Sydney, houve um aumento de mais de seis vezes no uso das armas de eletrochoque, em apenas três anos. Em 2008, a Taser foi usada 126 vezes. Já em 2010, foram 1.169 vezes. A polícia destaca, porém, que houve queda no uso desse instrumento em 2011: ele foi necessário em 826 ocorrências.

O uso da arma - defendido como um avanço em relação à letalidade das armas mais comuns - é polêmico no mundo inteiro. Há um mês, a Anistia Internacional divulgou um relatório mostrando que mais de 500 pessoas foram mortas nos Estados Unidos por esse armamento, somente entre 2001 e o início de 2012.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.