Polícia investiga se black blocs têm elos políticos

Secretaria da Segurança elaborou 'questionário' para delegados recolherem depoimentos; pasta quer saber se manifestantes são filiados a partidos

Adriana Ferraz e Luciano Bottini, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2013 | 02h03

A Polícia Civil quer saber se os integrantes do movimento Black Bloc são filiados ou têm ações financiadas por algum partido político. Ontem, 65 jovens supostamente envolvidos em atos de vandalismo promovidos durante manifestações foram ouvidos no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), que utilizou uma espécie de "questionário" elaborado pela Secretaria de Estado da Segurança Pública.

A lista previa oito recomendações. Além de indagar sobre uma possível participação política dos suspeitos, os delegados foram ordenados a questionar sobre as lideranças do grupo e a forma como os protestos são organizados. A coleta de dados pessoais, como endereço, local de estudo ou trabalho e até e-mail também estava predeterminada pela pasta.

O diretor do Deic, Wagner Giudice, ainda confirmou que os depoimentos foram filmados e fotografados. A ideia é criar um banco de dados que possibilite a identificação dos suspeitos em novos atos.

"Essa é uma investigação aparentemente de cunho político. Nós impedimos que nossos clientes respondam perguntas como a de que se é filiado a algum partido político", disse o advogado ativista Geraldo Santamaria, que acompanhou duas pessoas ontem no Deic. Ao todo, 80 foram convocadas.

De acordo com Giudice, ao longo de dez horas de depoimentos nenhum convocado admitiu ser black bloc. "E alguns não são mesmo. Foram chamados porque seus nomes constavam em boletins de ocorrência", afirmou. Nos próximos dias, o departamento fará novas convocações. Até lá, nenhuma pessoa deve ser indiciada ou presa.

A investigação tem como foco buscar provas que comprovem que os black blocs se reúnem para cometer crimes. A Secretaria de Segurança Pública afirmou, em nota, que "não comenta informações de inteligência" e a investigação não é sobre "movimentos sociais, mas grupos que promoveram atos de vandalismo".

Com o apoio do Ministério Público Estadual, o objetivo é individualizar a participação de cada um e obter na Justiça autorização para impedir que participem de novas manifestações. O modelo deve ser o mesmo usado com torcedores de futebol vetados nos estádios. Em dias de protesto, os condenados teriam de ir a uma delegacia, onde permaneceriam detidos até o fim do ato.

Líderes. Ainda em curso, a investigação já aponta a existência de líderes. "Eles são responsáveis pela convocação dos 'inocentes úteis' via rede sociais. Tem um monte de moleque bobo que segue. Hoje, vi muitos deles tomando 'pito' das mães. O que se vende de black blocs não é o que de fato eles são. O grupo tem líderes, sim, e interesses políticos e sindicais por trás", afirmou o diretor.

Para o MPE, o grupo pode virar uma organização perigosa, nos moldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a longo prazo.

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