Polícia investiga relatos de ação premeditada

PMs que chegaram ao local após os tiros e professora ouviram de alunos que D. havia avisado que atiraria na professora e até teria mostrado arma

FELIPE FRAZÃO, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h03

Um dia antes de atirar na professora Rosileide e cometer suicídio, o estudante D., de 10 anos, teria dito a colegas de classe que cometeria o crime. A informação está sendo investigada pela polícia, com base em depoimentos dados pelos primeiros policiais que chegaram ao local e por uma professora.

A docente de Ciências e Geografia Priscila Rasante contou em depoimento no 3.º DP de São Caetano, no ABC, que ouviu dos estudantes, durante o tumulto que se formou logo após a tragédia, que os colegas sabiam das intenções de Davi. Amigos do garoto também teriam dito isso aos PMs que chegaram ao local, após os dois tiros. A informação era de que o garoto também mostrou o revólver para eles no banheiro - onde escondeu o 38.

Segundo a delegada que investiga o caso, Lucy Mastelli Fernandes, Priscila estava na escola no momento da tragédia. A versão da docente será investigada e as crianças devem ser ouvidas na próxima semana, na presença de uma psicóloga. Indagada sobre a situação do pai - que pode ser acusado por negligência na guarda -, a delegada afirma que ainda não vê motivos para indiciar o pai de D. "Meu filho nunca havia demonstrado interesse por arma", disse ele em depoimento anteontem.

Além de Priscila, prestaram depoimento ontem uma professora de Matemática e uma coordenadora da escola - que não sabiam dos comentários dos alunos. Nenhuma das testemunhas tinha informações sobre o que teria motivado o crime.

"Ele falou que ia matar a professora e se matar, senão o pai brigaria com ele", disse ontem D., de 10 anos, colega de sala, no velório. Ele diz que antes do disparo, no recreio, brincou de pega-pega com D. Eles se conheciam havia dois anos. "Ele sentava na penúltima carteira. E era calado. Não disse por que atiraria."

O garoto conta também que foi ao banheiro logo no início da aula de Português. Quando voltou à classe, encontrou D. no corredor, depois do primeiro tiro. "Eu falei 'e aí, D.?' e ele respondeu 'E aí?'. Eu virei e escutei um barulho. Quando vi, ele estava caído na escada, já com sangue."

V.K., de 1o anos, que cursou todo o ensino infantil com D., contou que ele sempre foi muito quieto. Ele também teria ouvido o boato sobre o disparo contra a professora. "O D. falou que ia matar e estava com a arma. Mas ninguém acreditou. Ele era muito tranquilo", disse V.

Enterro. Mais de 50 colegas de D. estiveram no enterro do menino, no Cemitério das Lágrimas, a 500 metros da escola. Pais e alunos relataram que não foi o primeiro caso de violência no lugar, apesar de reconhecerem que trata-se de um colégio "disputado" e de bom ensino.

Em maio, alunos de 13 e 14 anos levaram bebidas para a sala. Em 2010, houve outros três casos: uma bomba caseira foi acendida em sala; um aluno de 9 anos foi ameaçado com um canivete por outro de 13; e um aluno de 14 teria levado um soco-inglês.

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