José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Polícia investiga ligação de vereador do PT com o PCC na gestão de empresa de ônibus de SP

Deic deflagrou operação nesta quinta-feira e vê Senival Moura envolvido também em um crime de homicídio cometido em 2020; parlamentar nega acusações

Marcelo Godoy, Marco Antônio Carvalho e Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2022 | 15h00
Atualizado 09 de junho de 2022 | 19h44

A Polícia Civil deflagrou operação nesta quinta-feira, 9, para investigar o envolvimento do vereador de São Paulo Senival Moura (PT) em um crime de homicídio, além de supostas ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC) na gestão de uma empresa de ônibus da capital paulista. Buscas foram autorizadas pela Justiça em oito endereços ligados ao vereador e a outros suspeitos; duas prisões temporárias foram decretadas. 

De acordo com informações divulgadas pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), que coordena a apuração, a investigação começou depois da morte de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da empresa de transporte Transunião, que possui contrato com a Prefeitura de São Paulo. Adauto foi executado em 4 de março de 2020. A partir do homicídio, a polícia diz ter descoberto o envolvimento do crime organizado com a empresa.

Em nota, o vereador nega as acusações e disse ter sido “surpreendido” pela operação policial na casa dele. “Quero aqui reafirmar que eu não tenho nenhum envolvimento com as ações que estão sendo noticiadas. Entretanto, estou à disposição da Justiça para quaisquer esclarecimentos”, declarou. “Sobre o Adauto Jorge Soares sinto até hoje essa perda, principalmente, pela forma cruel e violenta que foi.”

Segundo a polícia, a TransUnião “era utilizada para a lavagem de dinheiro de membros do PCC”.  A empresa não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A Prefeitura informou que a TransUnião tem frota de 564 veículos e atende 49 linhas. “No momento, não há alteração na operação do sistema. A população que depende do serviço, em média 315 mil pessoas, segue sendo plenamente atendida.”

Também destacou que a Secretaria Executiva de Mobilidade e Transportes (Setram) e a SPTrans “não foram informadas formalmente a respeito do teor das investigações”. Mas assegurou que vai “acompanhar e colaborar com a polícia em tudo que for solicitada”.

Investigação

“O Senival Moura foi um dos fundadores da TransUnião. Ele foi um dos fundadores da linha de lotação chamada de Guaianazes-São Miguel, a segunda mais antiga da capital”, disse o delegado Fábio Pinheiro Lopes, diretor do Deic, em entrevista coletiva. “E depois acabou fundando essa cooperativa que se chamava TransUnião.” A cooperativa se tornou uma empresa.  

Adauto, amigo de longa data do vereador, teria sido colocado na presidência da cooperativa, mas, segundo as investigações, seria apenas um laranja. “Quem dava as ordens era o Senival Moura”, destacou Lopes.

Com o decorrer do tempo, o PCC percebeu que Moura e Adauto estariam desviando dinheiro da cooperativa. E, por isso, havia “decretado” a morte dos dois.

Porém, diz a polícia, Moura conseguiu ser “afiançado”, com a ajuda de um membro do PCC. O “partido” tomou os ônibus que lhe pertenciam e expulsaram o vereador da empresa. “Em contrapartida eles exigiram o ‘sangue’. Foi a hora que o Adauto foi executado”, declarou Lopes. “Ele (Senival) deu um jeito que o ‘sangue’ fosse o do outro, não o dele.”

A polícia diz que Devanil Souza Nascimento, o “Sapo”, suposto motorista do vereador Senival, levou Adauto para uma padaria, onde ocorreu a execução ainda no estacionamento. Quem teria cometido o homicídio foi Jair Ramos de Freitas, o “Cachorrão”, que virou diretor da empresa de transporte após o crime. Sapo e Cachorrão tiveram a prisão temporária decretada.

No entanto, Lopes reforçou que ainda busca mais provas para sustentar a associação. “Isso a gente ainda vai provar”. A Justiça não concedeu mandado de prisão do vereador. “No momento da morte do Adauto, nem eu e nem ele tínhamos mais qualquer vínculo com a empresa”, afirma Senival Moura.

Entre 30% e 40% da frota é do PCC

De acordo com a polícia, junto à vítima foi apreendida uma relação de 521 ônibus da empresa. Ao lado do veículo, vinha o nome do “laranja” e também do verdadeiro dono. “Mais ou menos, 30% ou 40% dos ônibus são pertencentes a membros do PCC”, contou Lopes.

“Foi aí que descobrimos que o Senival tinha 13 ônibus”, destacou. Segundo o delegado, na declaração de imposto de renda para campanha das eleições de 2020, o vereador teria declarado apenas um.

Buscas

A Justiça autorizou buscas ainda em endereços ligados ao atual presidente da empresa, Lourival de França Monario. Dezoito coletivos pertencentes aos investigados foram apreendidos. Nas buscas, foram encontradas “rifas do PCC” e armas. No escritório do vereador, de acordo com a polícia, “farta” documentação sobre a TransUnião foi encontrada.

Histórico

 Senival é líder do PT na Câmara dos Vereadores e presidente da Comissão de Trânsito e Transporte da Casa. Em 2020, após a morte de Adauto, o Estadão noticiou que ele havia solicitado escolta da Polícia Militar. “Houve uma preocupação da presidência (da Câmara) quanto à minha integridade física”, disse na oportunidade. 

Em 2020, o Estadão detalhou que Senival e Adauto eram perueiros nos anos 1980, antes de o transporte clandestino ser regularizado na gestão Marta Suplicy (2000-2004). Em 2012, o Ministério Público do Trabalho acusou Moura de contratar perueiros como “laranjas”, declarando à Prefeitura serem donos de lotações que, na verdade, pertenceriam ao vereador. As ações trabalhistas terminaram em acordo e o parlamentar negou irregularidades.

Senival é irmão do ex-deputado estadual Luiz Moura, expulso do PT em 2014 após ter sido flagrado pela Polícia Civil em uma reunião em que, segundo a investigação da época, havia membros da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). O deputado negou qualquer ligação com a facção criminosa. Diversas investigações do Ministério Público de São Paulo apontaram ligações entre a organização criminosa e as lotações da cidade.

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