Polícia investiga atuação de milícia na zona sul do Rio

Morador denuncia ação de grupo paramilitar que venderia proteção contra criminosos que deixam áreas ocupadas por UPPs

Pedro Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Milicianos - policiais, bombeiros e agentes penitenciários integrantes de quadrilhas formadas para vender proteção e operar negócios ilegais em favelas e bairros pobres e distantes das áreas centrais do Rio - estão sendo investigados por suposta atuação em bairros nobres da zona sul.

O objetivo dos paramilitares, segundo a polícia, é lucrar com o medo de vizinhos de favelas ocupadas por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em relação a criminosos que teriam fugido das áreas que antes dominavam, agora ocupadas pelo Estado. Inquérito foi instaurado semana passada na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) para apurar a ação do grupo em Copacabana, após denúncia de morador surpreendido com cobrança de taxa de segurança em seu condomínio.

Os milicianos seriam responsáveis por crimes como roubos a transeuntes, furtos em carros e até incêndios de veículos, mas os atribuiriam a traficantes expulsos das favelas pelas UPPs. Eles ofereceriam segurança aos moradores, apesar de a polícia ter informado que os líderes do tráfico estão refugiados em favelas como Complexo do Alemão e Vila Cruzeiro, na zona norte.

Segundo afirmação de investigadores da Draco nos inquéritos, a ação dos milicianos na zona sul é muito mais discreta do que nas favelas da zona oeste, onde os paramilitares cobram ostensivamente por segurança e exploração de serviços, como distribuição de gás, transporte alternativo e distribuição pirata de sinal de TV a cabo, o gatonet.

"A testemunha que prestou depoimento sobre a extorsão de dinheiro em Copacabana descobriu que o condomínio pagava pela suposta segurança apenas após examinar o balancete detalhado do condomínio. Ele ainda foi repreendido por vizinhos, que temem represálias, por fazer a denúncia", disse o delegado da Draco Alexandre Capote.

Pânico. Após a ampliação do cinturão das UPPs para a zona norte, uma onda de pânico se alastrou pela cidade. Nesta semana, pelo menos seis carros foram incendiados. Dois foram atacados em Vila Isabel, na zona norte, onde foi instalada a UPP do Morro dos Macacos. Outros dois foram atacados no Flamengo, na zona sul, bairro que recebeu uma "UPP informal" no Morro Azul. Dois veículos foram queimados no bairro do Tanque, na zona oeste, área sob domínio das milícias. Nada foi roubado.

Nos supostos arrastões que seriam promovidos por milicianos, apenas os pertences dos motoristas são levados. Na Rua Faro, desde setembro, os moradores registraram queixas de roubos praticados por quatro integrantes de um Corolla preto. "Três foram identificados e não foi detectada ligação com o tráfico de drogas. Trata-se de uma família do Catumbi (zona norte), que teve integrantes já presos por roubo. O mesmo grupo atuou na zona sul em 2008. Na época, também foi levantada uma possível ligação deles com milicianos, mas nada foi comprovado", afirmou a delegada titular da 15.ª DP da Gávea, Bárbara Lomba. Segundo ela, o mesmo carro foi visto fazendo assaltos em outros bairros da zona sul.

PARA LEMBRAR

As milícias controlam cem favelas no Rio, principalmente na zona oeste, segundo pesquisa da Universidade Cândido Mendes. Esses grupos, formados por policiais, bombeiros e agentes penitenciários, surgiram nos anos 1980 e hoje dominam mais territórios do que as quadrilhas de traficantes. Em 2008, CPI da Assembleia Legislativa do Rio acusou 150 pessoas de envolvimento com milícias, inclusive políticos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.