Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Polícia faz operação contra o tráfico de drogas na Cracolândia

Batizada de 'Redenção, ação cumpriu dez mandados de prisão e deteve mais sete suspeitos em flagrante

Ana Paula Niederauer e Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2019 | 08h27
Atualizado 22 de agosto de 2019 | 17h12

SÃO PAULO - Uma operação de combate ao tráfico de drogas na região da Cracolândia, no centro de São Paulo, prendeu 17 pessoas na manhã desta quinta-feira, 22. Coordenada pelo Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), a ação envolveu mais de 560 agentes de segurança e durou cerca de 3h30, sem registro de confronto. Embora tivessem mandado de prisão contra eles, outros 11 suspeitos não foram localizados e, agora, estão foragidos.

A investigação durou mais de seis meses, segundo a Polícia Civil, e tinha como objetivo identificar os responsáveis por abastecer o “fluxo”, como é conhecida a concentração de usuários de droga na Cracolândia. Ao fim, a Justiça autorizou o cumprimento de 20 mandados de busca e apreensão e outros 21 de prisão temporária.

Batizada de “Redenção”, a operação foi deflagrada às 6 horas e os policiais conseguiram capturar dez dos procurados. Outros sete suspeitos foram presos em flagrante. Segundo a Polícia Civil, os agentes apreenderam com eles três armas de fogo, cinco celulares, cerca de R$ 800 em dinheiro e 21 quilos de droga - a maior parte, maconha (10 kg) e lança-perfume (8 kg).

A ação também mirou oito pensões localizadas no “quadrilátero da droga”, que é formado pelas Alamedas Cleveland e Glete e pelas Avenidas Rio Branco e Duque de Caxias. Os imóveis serviriam para armazenar os entorpecentes. “Os traficantes usavam como entreposto”, disse o delegado-geral Ruy Ferraz Fontes. “Parcela da droga fica guardada na pensão, e eles (os traficantes) vão encaminhando para o fluxo enquanto a venda acontece.”

Para a “Redenção”, foram mobilizados 267 policiais civis e 93 policiais militares, da gestão João Doria (PSDB), além de 200 guardas-civis municipais, da gestão Bruno Covas (PSDB). Também foram usados mais de 130 viaturas e um helicóptero. Ao contrário de episódios anteriores, a polícia não encontrou resistência e ação ocorreu sem registro de conflitos.

 

Droga da Cracolândia é produzida no Paraguai, diz Polícia Civil

A Polícia Civil não divulgou a lista das pessoas que tiveram mandado de prisão cumprido. “Dos 17 presos, muitos já tinham passagem e alguns deles já tinham sido pegos em operações anteriores vendendo crack”, disse Ferraz Fontes.

Um organograma do Denarc, no entanto, aponta que a droga que abastece a Cracolândia é produzida no Paraguai. O esquema também envolveria traficantes que já estão reclusos no sistema prisional.

Segundo a investigação, um homem chamado Miguel, o “Negão”, teria a função de negociar com intermediários para levar a droga para a Cracolândia, atuando como uma espécie de fornecedor. Já dentro do “fluxo”, o negócio é feito em bancas de madeira por traficantes “varejistas”, conforme mostram filmagens usadas pelo Denarc na investigação. 

Historicamente, o tráfico da região é dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), principal facção de São Paulo. Mas, de acordo com o delegado-geral, a sequência de operações teria alterado o perfil dos traficantes, diminuindo a influência direta do PCC.

“O crime organizado tem desistido de atuar na região”, disse Ferraz Fontes. “Antes, havia notícia de venda de 200 quilos de crack por mês. Hoje, é muito menos”, afirmou. O delegado, porém, não informou qual seria o volume de entorpecente que a Cracolândia movimenta atualmente.

Em 2017, o governador João Doria (na época, prefeito de São Paulo), após uma megaoperação policial na região, chegou a de declarar que “a Cracolândia acabou”. Questionado sobre a fala, o delegado-geral afirmou que “absolutamente não existe prazo" para que a situação seja resolvida pelo poder público.

“Existem duas metas. Uma é de caráter político, que trata da assistência que temos de dar aos dependentes. É difícil de ser empregada, porque o dependente antagoniza muito com o que nós propomos a ele”, disse. “E uma segunda meta de  caráter técnico: tirar o traficante lá de dentro.”

Fluxo se concentra na Júlio Prestes

Às 10h10, cerca de 40 minutos depois de a operação ser encerrada, equipes de saúde e de assistência social da Prefeitura eram vistas abordando os usuários de droga. Na Praça Júlio Prestes, onde fica o maior aglomerado de pessoas, dependentes químicos também voltavam a se concentrar, escondidos sob lonas.

O consumo de crack a céu aberto não parou - exceto quando usuários avistavam alguma criança passando. “Olha o ar do anjo!”, gritou uma mulher, assim que viu uma mãe de mãos dadas com dois filhos pequenos, atravessando a Alameda Cleveland. A frase faz parte do vocabulário interno da Cracolândia e é um aviso para que os usuários guardem um pouco o cachimbo e evitem que crianças aspirem o cheiro de plástico queimado, característico da droga.

Para quem tem comércio na região, o clima era de apreensão. Em ocasiões anteriores, usuários de droga já chegaram a atacar estabelecimentos após ações policiais. “Eu já fui furtado duas vezes”, comentou o proprietário de uma banca de jornal a Avenida Duque de Caxias. “Honestamente, acho pior quando tem operação: eles (os viciados) ficam mais agitados e não resolve a questão do tráfico.”

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