Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Polícia faz ação na Cracolândia e liga PCC e sem-teto ao tráfico de drogas

Ao todo, 32 foram presos, 5 em flagrante; foram achadas drogas, armas e munições escondidas em invasão. Facção venderia 10 quilos de droga por dia e obteria R$ 4 milhões/mês na área; investigação de 8 meses tem mil horas de grampos

Alexandre Hisayasu, Felipe Cordeiro, Felipe Resk e Juliana Diógenes, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2016 | 09h48
Atualizado 05 Agosto 2016 | 23h34

SÃO PAULO - A polícia de São Paulo fez uma megaoperação nesta sexta-feira, 5, para prender líderes do Movimento Sem Teto de São Paulo (MSTS), acusados de agir em parceria com o Primeiro Comando da Capital (PCC) para consolidar o tráfico de drogas na Cracolândia, no centro da cidade. Os líderes da organização de moradia foram presos com drogas, armas e munições que estavam escondidas no Cine Marrocos, ocupado pelos sem-teto. Segundo as investigações, o tráfico na região movimenta 10 quilos de droga por dia, que rendem R$ 4 milhões por mês. 

Por volta das 6 horas desta sexta, 600 policiais do Departamento de Narcóticos (Denarc) ocuparam a Cracolândia. Eles se concentraram em dois pontos principais: um hotel na Rua Dino Bueno e o prédio do antigo Cine Marrocos. A Justiça expediu 27 mandados de prisão e 39 de busca e apreensão. A polícia prendeu 32 pessoas – 5 em flagrante por tráfico.

As investigações da chamada Operação Marrocos duraram oito meses e reuniram mais de mil horas de interceptações telefônicas. Nelas, os líderes do MSTS aparecem negociando drogas. Na segunda-feira, o Denarc ainda vai levar à Justiça Eleitoral o teor do grampo que teria flagrado o candidato a vereador Manolo Wanderley, do PCdoB, falando de repasse de dinheiro para Robson Nascimento dos Santos, apontado pela polícia como chefe do movimento. O partido não se pronunciou sobre o caso. 

Centro. A ação focou o Cine Marrocos, onde moram cerca de 300 famílias ligadas ao MSTS. No 12.º andar, estavam escondidas drogas e armas. No vão do elevador, policiais encontraram 1 fuzil AK-47 e 3 escopetas de uso restrito das Forças Armadas. Todos os apartamentos foram revirados. Os investigadores apreenderam na operação 15 quilos de crack, 25 de maconha, radiocomunicadores, quase cem facões e dinheiro.

Entre os presos está Robinson dos Santos. Ele é suspeito de usar o Cine Marrocos para reuniões do PCC. Nos encontros seriam definidos a divisão do dinheiro do tráfico e o que seria feito com traficantes que estavam em dívida com a facção criminosa. “Essa liderança do movimento já veio para a região com o intuito de estruturar o PCC. O MSTS foi criado para disfarçar a organização criminosa”, afirmou o diretor do Denarc, delegado Ruy Ferraz Fontes. Também foram presos outros líderes do movimento, como a vice-presidente, Lindalva Silva, e o secretário-geral, Wladimir Ribeiro Brito – detido em Maceió, onde passava “férias”. Ele foi flagrado em um dos grampos com uma traficante.

Ação. O Batalhão de Choque da PM deu apoio à ação. Os PMs e os policiais civis entraram em sete hotéis da Cracolândia e encontraram em dois deles laboratórios de refino de drogas. “Ficamos presos na empresa, ninguém podia sair”, disse Tiago Rodrigues, de 25 anos, que trabalha em uma seguradora. “Todo mundo acordou com o barulho. A confusão foi muito grande”, afirmou uma comerciante que não quis ser identificada. “Fiquei com medo de entrarem na lanchonete e levarem minhas coisas. Não me deixavam passar.”

Segundo relatos, houve confronto de usuários com os policiais na Cracolândia. Balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e jatos d’água foram usados para dispersar as pessoas. “Se a polícia entra desse jeito, complica. Aqui, querendo ou não é uma família”, disse Taine Cristina, de 32 anos, assistida no programa De Braços Abertos. Na ação, a Alameda Dino Bueno, onde o “fluxo” se concentra, ficou vazia. O cerco foi desmontado por volta das 11 horas. Com os usuários mais agitados, muita sujeita se acumulou em ruas e calçadas. A GCM disse que não iniciou a limpeza para não incomodar ainda mais.

Prefeitura e GCM não sabiam da operação

A Prefeitura de São Paulo não foi informada da megaoperação da Polícia Civil nesta sexta, mas troca informações há meses com a polícia sobre os suspeitos presos. O Estado apurou que a administração municipal começou a investigar os líderes do MSTS após estranhar o comportamento agressivo do grupo nas mesas de negociação. Uma denúncia anônima, relatando a existência de “biqueiras” em outro prédio ocupado pelo movimento, na região central, também levantou suspeita. 

Com base na Cracolândia, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) foi surpreendida. Os agentes não tinham iniciado a limpeza das ruas quando policiais militares e civis bloquearam o quadrilátero do “fluxo” e iniciaram o cumprimento dos mandados de busca. Via rádio, foram orientados a não intervir: aquela operação não era de responsabilidade da Prefeitura.

Os secretários de Estado da Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, e da Segurança Urbana da capital, Benedito Mariano, só conversaram entre si após o início da ação. Por telefone, agendaram uma reunião para a próxima semana. Mesmo sem o aviso, a gestão Fernando Haddad (PT) avaliou que a ação policial foi menos repressiva do que em ocasiões anteriores.

Nesta sexta, Haddad disse que o combate ao tráfico “é assunto do Estado”, mas comentou a prisão no Cine Marrocos. Segundo ele, a reintegração de posse deveria ter sido cumprida em junho, mas acabou suspensa. “O prédio é da Prefeitura para a Secretaria de Educação. Esperamos que o mandado seja cumprido”, disse. “Existem famílias sendo usadas por pessoas com intenções que não têm nada a ver com moradia, têm a ver com tráfico de drogas.” 

 

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