Polícia encontra provas que ligam PMs à morte de coronel

Acusados são investigados também pela tentativa de assassinato de um traficante e pela morte da mãe dele

Camila Molina, de O Estado de S. Paulo,

26 de janeiro de 2008 | 12h48

A polícia apreendeu uma motocicleta Honda Falcon preta, armas, toucas ninja e celulares com os dois sargentos e o soldado da Polícia Militar que foram presos na sexta-feira, 25, sob suspeita de ligação com o assassinato do coronel José Hermínio Rodrigues, com a tentativa de assassinato de um traficante e com a morte da mãe desse mesmo traficante. Os PMs foram presos pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) durante as investigações da morte de Rodrigues, e, em depoimento prestado durante a madrugada, negaram qualquer tipo de envolvimento com os crimes.   Veja também: Todas as notícias sobre a morte do coronel  Chacinas na zona norte     A moto é um dos principais indícios que ligam os dois casos, pois é do mesmo modelo e cor da usada na execução do coronel. O delegado do DHPP Marcos Carneiro Lima e a tenente-coronel da Corregedoria da PM Ângela Di Marzio deram nesta sexta-feira mais detalhes sobre a prisão dos três PMs.   Segundo Ângela di Marzio, mais de 20 PMs estão sendo chamados à Corregedoria como colaboradores para a investigação, feita pelas Polícia Militar e Civil. O delegado Carneiro disse que "há a possibilidade de que outros policiais estejam envolvidos" nos crimes investigados. Não foram divulgados os nomes dos policiais presos.   Com os policiais presos, também foram apreendidos três cheques roubados - um deles de um correntista investigado pela polícia. Segundo o delegado, as justificativas dos policiais não foram convincentes, especialmente sobre os cheques roubados. Carneiro também afirmou que não foi detectado sangue no exame realizado na moto.   O delegado afirmou que os três PMs detidos "não são tratados como suspeitos da morte do coronel Hermínio", apesar de terem sido subordinados ao coronel. "Estamos fazendo investigações na zona norte, de casos que poderiam ter relação com a morte do coronel", disse.   O traficante que sofreu o atentado, preso e ouvido nas investigações, reconheceu os três PMs presos. Ele foi vítima de um flagrante de arma forjado depois de ter sofrido extorsão por policiais. A seguir, aconteceu a tentativa de homicídio. Por fim, a mãe, que ameaçou denunciar os policiais, foi morta no mesmo estilo da execução do coronel - com um tiro na cabeça e vários outros no corpo. "Ainda não sabemos se os calibres das armas usadas nos dois assassinatos batem." O resultado das perícias deve sair em dez dias.   Assassinato do coronel   Rodrigues era chefe do Comando de Policiamento de Área Metropolitano-3 (CPA-M3), e foi assassinado na manhã da quarta-feira, 16, quando andava de bicicleta na Avenida Engenheiro Caetano Álvares, na zona norte. Ele era responsável pelas investigações da participação de policiais militares em chacinas na região e estava de férias.    Na manhã deste sábado, a corregedoria da PM afirmou que ainda está investigando o crime e a relação dos três policiais com o assassinato.    Prisões temporárias   Os PMs tiveram suas prisões temporárias decretadas pela 2ª Vara do Júri de São Paulo por causa de dois outros inquéritos abertos em 2007 pela polícia. Por ora, a polícia é cautelosa em acusá-los diretamente pela morte de Rodrigues e eles podem ser soltos.   Em um dos casos investigados, o atirador pilotava uma moto Honda Falcon preta, mesmo modelo e cor usado pelo criminoso que disparou pelo menos cinco vezes com uma pistola calibre 380 no comandante. O mesmo modelo de arma também foi usada nos dois crimes pelos quais os policiais foram presos.   "Não temos condições de, por enquanto, vincular esses casos com a morte do coronel. Mas isso vai ser investigado", afirmou o delegado Marcos Carneiro Lima, do DHPP. Os três PMs ficarão presos pelo menos por 30 dias, prazo que pode ser renovado por outros 30 para que as investigações sejam feitas.   Além da suposta ligação com a morte de Rodrigues, o DHPP apura o envolvimento de policiais na chacina que deixou sete mortes e dois feridos ocorrida na zona norte no dia seguinte à morte do coronel. O departamento identificou a participação de PMs em três dos sete casos de chacina ocorridos na região em 2007.   Chacinas na zona norte   O coronel José Hermínio Rodrigues era um dos oficiais que investigava a possível participação de PMs nas chacinas ocorridas na zona norte. Em toda a capital paulista, 47 pessoas morreram nas 12 chacinas registradas em 2007.   A periferia da zona norte liderou o ranking de chacinas da capital em 2007. Das 11 registradas até setembro de 2007, oito ocorreram na região, com saldo de 26 mortos. Só duas foram solucionadas, ambas com envolvimento de PMs. Dois estão detidos, à espera de julgamento. Nas demais regiões, foram 11 mortos.   A forma de agir dos assassinos era quase sempre a mesma. Homens de capacetes escuros surgiam de madrugada em motos e usavam pistolas calibre 40, arma padrão da polícia.   Em janeiro de 2007, no Jardim Brasil, quatro pessoas foram assassinadas e um soldado foi preso pela polícia. Em maio, seis jovens foram mortos no Jaraguá. Um cabo da PM envolvido no crime foi preso.   Em outros casos investigados, policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) obtiveram indícios de que havia a participação de policiais militares nos crimes.   Um deles envolvia suspeitas contra integrantes da Força Tática do 18º Batalhão da PM e de integrantes das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). O crime aconteceu em 1º de fevereiro de 2007, no Jardim Elisa Maria. Quatro homens, que chegaram em um Palio, dominaram sete jovens, mandaram-nos virar de costas e atiraram - só um sobreviveu.

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