Divulgação / Governo do Estado de SP
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Polícia de São Paulo não tem dúvida de que voluntário da Coronavac cometeu suicídio

Registro foi feito por delegado no dia 29 de outubro às 16 horas. Corpo foi encontrado após apartamento ter a porta arrombada. Não foram encontrados sinais de violência no local

Felipe Resk, Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 21h39

A Polícia Civil de São Paulo não tem dúvidas de que o voluntário da Coronavac, o farmacêutico A.L.L., de 32 anos, cometeu suicídio. É esse episódio que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alega para suspender os testes da vacina contra a covid-19. Por sua vez, o governo do Estado diz ser "impossível" que haja relação da morte com o imunizante.

Desde o dia 29 de outubro, às 16 horas, a polícia registrou a causa da morte como suicídio. A informação consta no Boletim de Ocorrência 2.460/2020 feito pelo 93.º Distrito Policial (Jaguaré), ao qual o Estadão teve acesso.

Assinado pelo delegado José Eduardo Maruca e pela escrivã Stephany Vieira da Silva, o documento relaciona duas testemunhas do caso que confirmaram a versão à polícia. Trata-se do policial militar Eduardo Alessandro Vieira, de 45 anos, e de Sérgio Martins de Almeida, zelador do prédio em que a vítima morava.

Ao delegado, Vieira contou que foi ao endereço depois de sua viatura ter sido contatada pelo Centro de Operações da PM paulista. Ele estava com  o policial Vinicius Marques da Silva, de 28 anos, que também é relacionado no boletim de ocorrência. Segundo narra, o Copom informou que uma pessoa havia sido encontrada morta em um prédio da Avenida Nossa Senhora da Assunção, no Rio Pequeno, na zona oeste da capital.

Ao chegar, os PMs encontraram o zelador do prédio já no interior do apartamento. O funcionário mostrou aos policiais onde estava a vítima. 

Em seguida, o zelador contou que naquele mesmo dia, por volta das 13 horas, o companheiro da vítima - W.G.M.- estava viajando no interior de São Paulo e entrou em contato com a administradora do condomínio. Preocupado, ele não conseguia falar com o farmacêutico desde a noite anterior.

Segundo o zelador, o companheiro da vítima havia dado autorização para ele tocar a campainha e, caso necessário, arrombar a porta. Com um segurança do condomínio, eles forçaram a entrada e encontraram A.L.L. já sem vida.

O delegado foi até o local e não achou sinais de violência no apartamento. Ele requisitou perícia para a residência e para a vítima. Embora aguardem exame toxicológico para a confirmação formal, os investigadores não têm dúvida de se tratar de suicídio.

Governo de SP vê com desconfiança decisão da Anvisa

O Estadão apurou que a vítima A.L.L. se tornou voluntária da Coronavac no início de outubro -- mas não há informação se ele, de fato, recebeu uma dose do imunizante ou placebo. A vacina contra a covid-19 está na fase três dos ensaios clínicos, a última etapa, e é considerada uma das mais promissoras pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Pouco depois de entrar para a pesquisa, no entanto, o farmacêutico teria parado de dar notícias e sumiu do radar do Hospital das Clínicas, que é responsável por coordenar o grupo de voluntários. Segundo fontes que participam do estudo, mesmo se ele tivesse recebido uma dose, o intervalo entre a aplicação e a morte da vítima descartaria a hipótese de relação entre os fatos.

O grupo de pesquisa informou à Anvisa sobre o "evento adverso" na última sexta-feira, 6, mais de uma semana após o óbito. Os cientistas alegam que não sabiam o paradeiro do voluntário.

Por sua vez, a Anvisa só comunicou ao Instituto Butantã da suspensão dos testes na segunda-feira, 9, mesmo dia em que o governador João Doria (PSDB) havia anunciado o início das obras da fábrica da Coronavac. O e-mail com o comunicado chegou às 20h47 à instituição paulista, poucos minutos antes de a imprensa ser informada pela agência da paralisação.

Com a suspensão da pesquisa, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, sem apresentar provas, que a vacina causaria "morte, invalidez e anomalia". "Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la (...) Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", disse.

Interlocutores do governador afirmaram à reportagem que o Palácio dos Bandeirantes vê com desconfiança a decisão da Anvisa e suspeita que agência atuou para criar um "alarmismo desnecessário". Integrantes do governo também reclamam que faltaria um "diálogo direto" com a agência, como é esperado durante uma situação de crise.  

Presidente Estadual do PSDB e Secretário de Desenvolvimento Regional da gestão Doria, Marco Vinholi criticou o presidente em nota divulgada nesta tarde. "Lamentável que o presidente Jair Bolsonaro se ocupe tanto de sua tentativa de reeleição daqui a dois anos e não se preocupe em salvar a vida de brasileiros na pandemia", diz o comunicado. "A busca por uma vacina eficaz contra a covid não é uma guerra política nem deve ser tratada desta forma. Atuar contra a vacina do Butantã é atentar contra a vida.

Diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres disse que a decisão de parar os testes foi "técnica" e que o governo de São Paulo não teria informado sobre o suicídio. Formado em Medicina e membro da Marinha, ele chegou a participar de manifestações ao lado de Bolsonaro no início da pandemia.

"Quando temos eventos adversos não esperados, a sequência de eventos é uma só: interrupção dos estudos", afirmou Barra Torres."As informações foram consideradas incompletas, insuficientes para que continuasse permitindo o procedimento vacinal."

Ao Estadão, procuradores federais afirmaram que o Ministério Público Federal deveria requisitar o processo da Anvisa para saber quando e de que forma a decisão foi tomada.

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