FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Polícia Militar cumpre reintegração de posse em terrenos da zona sul

Áreas, de 245 mil m² e 135 mil m², que pertencem à construtora Savoy, estão ocupadas por 800 famílias de trabalhadores sem-teto

Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

09 Junho 2015 | 03h00

SÃO PAULO - A Polícia Militar cumpre nesta terça-feira, 9, uma ordem de reintegração de posse de dois terrenos na região da Pedreira, zona sul de São Paulo, ocupados há dois meses por cerca de 800 famílias de trabalhadores sem-teto. As duas áreas, uma de 245 mil m² e outra de 135 mil m², pertencem à construtora Savoy. As lideranças da Associação de Moradia Antônio Conselheiro e da ONG Projeto O Novo Rumo dizem que os lotes de terra não são da empresa e afirmam que querem comprar os espaços para construir moradias populares sustentáveis. 

A ocupação, formada por moradores de bairros como o Jardim Miriam, Vila Joaniza, Cidade Ademar e Pedreira, fica entre grandes empreendimentos comerciais como o Shopping Interlagos, Leroy Merlin e um supermercado atacadista. De acordo com a Savoy, o grupo é dono dos terrenos há 40 anos e a área está reservada para "a ampliação do centro comercial". 

As barracas mudaram o cenário da região. Em uma delas, a desempregada Gisele Cruz, de 20 anos, cria e alimenta os quatro filhos, com idades entre um e nove anos. A situação econômica dela e do marido, o lavador de carros Anderson Oliveira Santos, de 29 anos, não permite que eles frequentem os centros comerciais que cercam a ocupação. "Nossa renda é de R$ 800 e pagamos R$ 650 de aluguel. O pouco que sobra é para comprar comida para as crianças", explicou Gisele Cruz, que há pouco mais um mês vive na ocupação. A família ainda mantém a casa no bairro da Pedreira. 

Outros que vivem na ocupação têm como origem áreas de risco, como a Favela da Fumaça, na divisa de município entre São Paulo e Diadema, cidade do ABC Paulista. É o caso do desempregado Felipe Augusto dos Santos, de 22 anos. "A ocupação não é o lugar ideal para morar, mas como moro em uma área de risco no barraco que eu montei, acho que aqui oferece mais dignidade. Não tenho condições de pagar um aluguel de R$ 1.000 fora da favela", afirmou. 

A faxineira Zélia Maria Cardoso, de 58 anos, vive com o marido em uma área de risco às margens da Represa Billings e não paga aluguel. "Para sair de onde eu moro, tenho que pagar mais de R$ 1.000 por mês de aluguel. Para mim é impossível. Eu e meu marido ganhamos muito pouco." Na ocupação, Zélia ajuda na cozinha. Ela adquiriu experiência trabalhando em creches e escolas.

Há três meses, a faxineira sofreu um acidente, quebrou o pé e precisou colocar três pinos, o que a deixou impossibilitada de trabalhos mais pesados na faxina. "Eu sempre tento lavar e passar roupa para fora, mas não é sempre que consigo", explicou.

A ocupação é formada por pedreiros, marceneiros, eletricistas e professores. Até por isso, segundo Vavá de Oliveira, presidente da ONG Projeto O Novo Rumo, que ajuda a organizar a ocupação, foi possível montar uma frente de trabalho. "Se por um lado aqui eles não precisam pagar aluguel, por outro podem contribuir de alguma forma para deixar o lugar digno. Nossa meta não é invadir a área. A ocupação serve para chamar a atenção de que esse espaço pode ter habitação popular", afirmou. 

Justiça. Mas para que a área seja viabilizada para o grupo, antes eles vão precisar reverter a decisão da Justiça que determina a reintegração de posse do local, favorecendo a Savoy. De acordo com o advogado da ocupação Aparecido Donizete Piton, uma família italiana é dona do terreno e não a construtora. "Nos anos 70 a Savoy surgiu com uma matrícula do terreno, dizendo que a área era dela. Como o grupo tem condições econômicas de enfrentar grandes batalhas judiciais, acabaram conseguindo provar que eram os donos da área", afirmou. 

De acordo com Piton, negociar a área para construtoras parceiras da ocupação pode ser vantajoso para a Savoy. "Temos um grupo de empresários interessados em adquirir a área e fazer um bairro sustentável." Procurada, a Savoy afirmou que é dona dos terrenos ocupados "há mais de 40 anos". Segundo a empresa, o local faz parte "da área destinada ao Shopping Interlagos".  Em nota, a Savoy disse ainda que "rechaça veementemente as alegações dos invasores sobre tentativa de grilagem de terra".

Nelson Mandela. Também nesta terça-feira, a Polícia Militar vai desapropriar uma ocupação batizada como Nelson Mandela, às margens do Trecho Oeste do Rodoanel, em Osasco, na Grande São Paulo. De acordo com a corporação, são 12 mil pessoas e 3.000 barracas instaladas em um terreno particular com cerca de 8 mil m². A reintegração vai começar às 6h com o apoio de 11 batalhões da Polícia Militar - entre eles o Choque - um do Corpo de Bombeiros e as guardas municipais de Barueri e Osasco.

PARA LEMBRAR 

Em 2014, os movimentos por moradia ganharam atenção, puxados principalmente pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST). O grupo fez marchas pela cidade, fez pressão na aprovação de um Plano Diretor Estratégico que incluísse áreas para a habitação popular e conseguiu a regularização da ocupação Copa do Povo. O acampamento chegou a ser legalizado e destinado ao Minha Casa, Minha Vida com uma lei municipal. No entanto, o MPE questionou a decisão da Prefeitura de São Paulo e a Justiça suspendeu o decreto do prefeito Fernando Haddad (PT), em caráter liminar. Neste ano, as ocupações saíram do centro das atenções. Mas mesmo assim, os sem-teto fizeram marchas pela cidade sob a liderança de Guilherme Boulos, coordenador-geral do MTST.

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