Polícia culpa banda, donos e bombeiros pelas 241 mortes na boate de S. Maria

A Polícia Civil culpou 28 pessoas, direta ou indiretamente, pelo incêndio que matou 241 jovens na boate Kiss, em Santa Maria (RS), no dia 27 de janeiro. Dessas, 16 foram indiciadas criminalmente ontem, incluindo os donos da casa, integrantes da banda que fazia show e bombeiros que vistoriaram o local. Se a acusação for mantida pelo Ministério Público e pela Justiça, todos vão a júri popular.

ELDER OGLIARI / PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

23 Março 2013 | 02h06

Além disso, o inquérito entregue ontem relaciona outras 12 pessoas, como outros bombeiros, secretários municipais e o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB), por indícios de prática de crimes ou irregularidades, mas eventual processo contra elas correrá em foro específico - no caso do prefeito, por exemplo, a 4.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça.

O resultado da investigação foi apresentado pelos delegados Marcelo Arigony, Sandro Meinerz, Marcos Vianna, Luisa Souza e Gabriel Zanella. Antes de citar os nomes, Arigony apresentou as circunstâncias da tragédia. Segundo a narrativa, o fogo foi deflagrado por uma faísca de um artifício usado por um integrante da banda Gurizada Fandangueira, que chegou ao revestimento acústico de espuma inadequada e irregular, feita de poliuretano, e se espalhou rapidamente.

A fumaça causada pela combustão logo baixou do teto para o chão. Enquanto tentavam escapar, os frequentadores da casa, que estava superlotada, respiraram dióxido de carbono e cianeto e perderam os sentidos.

Depois do início do incêndio, outras falhas ampliaram a tragédia. Um músico tentou usar um extintor, que não funcionou. Quando a fumaça escureceu tudo, não havia sinalização de vias de fuga nem saída de emergência. Todos se afunilaram em busca da única porta. Os primeiros ainda foram contidos pelos seguranças, que imaginavam tratar-se de uma confusão comum e exigiram as comandas pagas. E na saída havia grades que viraram obstáculos ao escoamento do público.

"Houve uma conduta no mínimo temerária, muito ruim, dos gestores do local", afirmou Arigony, referindo-se às instalações inadequadas, às reformas feitas sem acompanhamento técnico e "a uma série de irregularidades quanto aos alvarás". "Foi uma temeridade muito grande a casa funcionar daquele jeito", avaliou, para explicar a acusação de homicídio com dolo eventual contra nove pessoas.

40 segundos. O inquérito é o maior da história da Polícia Civil gaúcha, tanto pela extensão do caso quanto pelos 52 volumes, com 13 mil páginas. Para chegar às conclusões entregues à Justiça, os delegados ouviram 810 pessoas e recolheram dois audiovisuais gravados por frequentadores. Esses mostraram que, em apenas 40 segundos, a festa foi do incidente do fogo ao pânico e ao caos.

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