Polícia Civil trabalha à margem da informação digital

Policiais de áreas estratégicas como Deic e Deinter pagam do próprio bolso para ter aceso à internet

Josmar Jozino, josmar.jozino@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2010 | 00h00

do Jornal a Tarde

Enquanto o crime organizado tem nas prisões telefone celular de última geração, os computadores da Polícia Civil de São Paulo ainda não são ligados à internet. Para realizar pesquisas e acessar dados de outros Estados, policiais são obrigados a levar equipamentos de casa e fazer "gambiarra" no serviço.

A Polícia Civil garante que 98% dos municípios paulistas já têm condições de acesso à internet. Mas não é o que afirmam policiais do Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), uma das unidades de elite da corporação, e delegados subordinados ao Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter).

No interior, delegados disseram que fazem vaquinha e cada um desembolsa por mês R$ 10 para pagar o acesso. "É vergonhoso. Mas se a gente não faz isso, não tem como utilizar essa importante ferramenta de investigação", desabafou, indignado, um delegado da região oeste do Estado.

Investigadores do Deic contaram que são poucos os computadores configurados pela Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo (Prodesp). A empresa é responsável pelo serviço de tecnologia de informação do governo estadual.

Poucos delegados têm acesso à internet, o que requer uma senha. O serviço, porém, é lento e restrito. Não é permitido acessar determinados sites, inclusive de relacionamentos, nos quais os policiais podem fazer consultas para obter fotos de suspeitos e outras informações necessárias às investigações.

Delegados disseram que somente no mês passado a Polícia Civil informou que os policiais vão poder se cadastrar para ter acesso à internet. "Recebi um código da Prodesp, mas ainda não foi possível fazer o cadastramento e ter uma senha", revelou um investigador do Deic.

Muitos investigadores não podem trocar e-mail com colegas de outros Estados por causa da indisponibilidade do serviço. "Isso é um absurdo. Não temos as mínimas condições de trabalho", reclamou um policial com mais de 20 anos de serviço.

A presidente da Associação dos Delegados do Estado de São Paulo (ADPESP), Marilda Pansonato Pinheiro, disse que a situação é grave: "Internet para nós é artigo de luxo. Se muitos de nossos colegas levarem os equipamentos particulares para casa, as delegacias fecham. Além disso, o programa da Prodesp é péssimo, cai com frequência e fica dias e dias fora do ar", afirmou.

A sindicalista disse ainda que a Polícia Civil é investigativa e, portanto, precisa de todos os equipamentos possíveis para realizar seu trabalho de maneira eficiente.

Nos distritos policiais sob o comando do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap) também é comum a presença de computadores particulares. "Apenas uma minoria de policiais tem acesso à internet. O sistema realmente é lento e precário", contou um delegado subordinado à 6ª Delegacia Seccional (Santo Amaro), na zona sul.

Para lembrar

O Deic já passou por situações piores do que ficar sem internet. Reportagem do Jornal da Tarde feita em novembro mostrou que os policiais estavam havia uma semana bancando com o próprio dinheiro a faxina do prédio. O contrato com a empresa responsável pela limpeza havia vencido e não fora renovado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.