Polícia apura se ordem para conflito em favela veio da prisão

Detenção de cunhado de líder do PCC é a causa mais provável da detonação de conflito em Paraisópolis

Josmar Jozino, do Jornal da Tarde,

04 Fevereiro 2009 | 01h11

A prisão do cunhado do chefe do tráfico de drogas na zona sul de São Paulo, Francisco Antonio Cesário da Silva, de 31 anos, o Piauí, integrante da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), foi o provável estopim da manifestação que na segunda-feira, 2, deixou seis feridos e quase uma dezena de carros destruídos na Favela de Paraisópolis. Casado com Francisca das Chagas Cesário da Silva, de 25, Antonio Galdino de Oliveira, de 24, foi detido em flagrante no domingo à tarde por porte ilegal de arma, horas depois da perseguição policial que terminou com a morte de Marcos Porcino, de 25, procurado da Justiça. Veja também: PM amplia ocupação em Paraisópolis e Marzagão vai à favelaMoradores soltam rojões e PM intensifica ronda Ao menos 6 ficaram feridos no confrontoPolícia relaciona morte de traficante a protestoParaisópolis passa por mudança TV Estadão - O confronto com a PM Galeria de fotos do confronto em Paraisópolis  O que as polícias Civil e Militar querem descobrir agora é se a ordem para o início do tumulto partiu do próprio Piauí ou se o protesto foi organizado por criminosos comuns, como ladrões e "soldados" do tráfico. Preso em 18 de agosto do ano passado, Piauí cumpre pena por sequestro, receptação, roubo e falsidade ideológica numa penitenciária em Mirandópolis, no interior do Estado. "A questão do parentesco é importante, mas tenho dúvidas se há hoje na favela uma liderança capaz de uma mobilização daquelas. Além disso, essa confusão prejudica os ‘negócios’ do PCC", avalia um policial. "Parece mais uma reação de moleques ligados ao crime, que acabou fugindo do controle." Durante a década de 90, um ladrão de cargas e justiceiro chamado Juarez foi o responsável por manter a ordem informalmente na favela à base da violência. Juarez também mantinha o tráfico de drogas afastado de Paraisópolis. Em 2003, integrantes do PCC conseguiram expulsá-lo, e também seus aliados, da região. Foi então que Piauí assumiu o controle do tráfico. "Ele era justo. Não deixava roubarem comerciantes, maltratar moradores e estuprar as mulheres. O único problema é que mais pessoas começaram a usar drogas aqui na favela", disse um antigo morador.  A partir de setembro de 2007, a polícia começou a planejar a prisão de Piauí. Quase um ano depois, ele foi capturado em uma casa de baile em Paraisópolis chamada Batucão. Mesmo preso, há indícios de que ele ainda atua como "torre" do PCC, tomando decisões sobre o comércio de drogas em toda a zona sul da capital. Vitor, que assumiu em seu lugar, foi preso em seguida pela polícia. Boneco assumiu então como "sintonia" e braço direito de Piauí em Paraisópolis. Mas precisou deixar a favela para diminuir os riscos de ser preso. Esse comando a distância permitiu que os soldados da facção, que comercializam drogas em Paraisópolis, tivessem mais autonomia de decisão. Furtos e roubos nos arredores do Morumbi, inclusive, passaram a ocorrer com mais frequência. O estopim do levante de soldados do PCC ocorreu depois de uma sucessão de fatos também decorrente desse vácuo de poder do crime da região. Moradores contam que dois policiais do 16º Batalhão da PM, conhecido como Zoio Roxo e Raio, aproveitaram a situação e passaram a achacar bandidos e moradores, abusando da violência no bairro. Eles se autodenominar "donos da favela". Os dois já haviam sido denunciados, mas nenhuma providência teria sido tomada. A perseguição policial ocorrida no domingo, que provocou o levante, segundo alguns moradores de Paraisópolis, teve a participação dos dois. Na ocorrência, além da morte de Porcino, traficante e ladrão muito querido na comunidade, e da prisão de Galdino, um terceiro morador, ainda não identificado, teria sido morto. Mais de 24 horas após os fatos, os traficantes de drogas da região, ligados ao PCC, tiveram tempo de organizar o levante pouco antes de começar os noticiários policiais da TV. Na terça-feira, 3, o secretário da Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, afirmou que o cerco à favela vai continuar por tempo indeterminado, até que a situação volte ao normal. Bruno Tavares, Renato Machado, Vitor Hugo Brandalise e Bruno Paes Manso, de O Estado de S.Paulo

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