Polícia agora teme a mistura mortal de cocaína e adrenalina

Apreensão inédita da substância indicaria nova fórmula do tráfico para aumentar lucros, mas que pode matar usuário

Plínio Delphino, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2011 | 00h00

Nova mistura feita por criminosos pode tornar a cocaína mortal. Pela primeira vez, o Departamento de Investigações Sobre Narcóticos (Denarc) apreendeu carga de adrenalina líquida produzida em laboratório. O material foi recolhido dia 16 de março em um dos quartéis-generais do tráfico em Jacareí, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo.

A polícia apreendeu 100 quilos de cocaína e 378 quilos de insumos, como lidocaína e ácido bórico, além de 2 litros da adrenalina líquida. Dois homens foram presos. Segundo a polícia, todo o material, avaliado em R$ 5 milhões, seria distribuído em cidades do litoral norte de São Paulo e no Vale do Paraíba.

Uma das hipóteses da polícia é que a adrenalina seria misturada à cocaína para, na ótica dos traficantes, obter maior lucro. Com menos cocaína, a combinação manteria sensações provocadas pela droga, como taquicardia, aumento das pupilas e sudorese. Para especialistas, o usuário teria de injetar a solução na veia.

O risco de enfarte e parada cardiorrespiratória é tão alto que assusta os médicos. Até 5 ml de adrenalina são usados para reativar os batimentos de vítimas de parada cardíaca, segundo Elisaldo Araújo Carlini, professor de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo e idealizador do Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas. "O coração com 70 a 80 batimentos por minuto exposto a certa dose de adrenalina pode chegar a mais de 130. Adicionando cocaína, pode causar danos gravíssimos, como fibrose ventricular, que provoca parada cardiorrespiratória. A mistura é devastadora."

O delegado Wagner Giudice, diretor do Denarc, disse que nenhum policial do departamento havia visto tal tipo de apreensão. "Traficantes misturam vários ingredientes na droga para lucrar. O produto a ser adicionado à cocaína varia conforme a quadrilha." Segundo Giudice, lidocaína e ácido bórico são usados frequentemente. "Mas a adrenalina nos causou surpresa."

Segundo Carlini, a adrenalina é um hormônio produzido pelo organismo em situações de perigo ou estresse. "Aumenta os batimentos cardíacos e a pressão arterial, visando a aumentar o fluxo de sangue aos músculos e também dilata as pupilas. Isso ocorre em situações em que é preciso lutar ou fugir, por exemplo."

O toxicologista Anthony Wong considera descabida a mistura de cocaína com adrenalina. "Não faz sentido. Só se o traficante quiser matar o cliente. A adrenalina não dá as sensações de grandeza e sociabilidade."

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