Polícia abre inquérito para investigar padre Júlio Lancellotti

Padre contou à polícia que vinha sendo extorquido por jovens há três anos, tendo pago R$ 80 mil

Eduardo Reina, do Estadão,

24 de outubro de 2007 | 21h34

A Polícia Civil abriu inquérito para apurar denúncia de corrupção de menor pelo padre Júlio Lancellotti. A investigação tem por base depoimento de uma ex-funcionária da Casa Vida 2, na Mooca, na zona leste de São Paulo. A entidade, ligada ao Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, teve o padre como um dos idealizadores. Mantido em segredo de Justiça, o depoimento da mulher, que trabalhou na casa no período 1999 a 2000, revela que o padre teria mantido ato libidinoso com um rapaz, no fim de 1999. A instituição atende crianças portadoras do vírus HIV com idades entre 8 anos e 14 anos.   De acordo com o delegado André Luiz Pimentel, titular do Setor de Investigações Gerais (SIG) da 5ª Seccional, a ex-funcionária contou detalhes do momento em que teria visto Lancellotti acariciar o rapaz. "Ela descreve como abuso sexual, mas seria um ato libidinoso. O próximo passo é identificar o menino e chegar na família", disse. O flagrante teria acontecido acidentalmente, segundo explicou o delegado, e só não teria sido denunciado antes por temor de que ninguém a levasse a sério. "Ela disse que todos os funcionários comentavam o caso do padre, mas que nunca acreditou nisso, até o dia que viu."   A ex-funcionária foi ouvida na noite de terça-feira, 23, por três horas, e o depoimento foi gravado. Júlio Lancellotti será chamado para contar sua versão, mas antes o delegado quer reunir outras provas e depoimentos sobre a denúncia. A pena para esse tipo de crime é reclusão de 1 a 4 anos. Representantes da Casa Vida 2 também serão chamado para depor.   Para a polícia, o garoto que teria sofrido o suposto abuso seria um ex-interno da Febem, hoje Fundação Casa. No período da denúncia, Anderson Marcos Batista, hoje com 26 anos, acusado de extorquir Lancellotti, estava internado na Febem.   O delegado assistente Marco Antonio Bernardino Santos pede muita cautela no caso. "É preciso verificar a veracidade dos fatos apresentados. Apenas abrimos o inquérito. O padre é somente averiguado." Santos explicou que chegou à ex-funcionária por investigações. "Fomos lá (na casa dela) e insistimos para que viesse. Ela nos contou que já deu um depoimento relatando essa história para a imprensa, que ainda não foi publicado."   Cortiço  Nesta quarta-feira, 24, a polícia também ouviu depoimento de um pedreiro que mora num dos quartos de um cortiço da Rua Catumbi, no bairro do Pari, que seria mantido por Anderson Marcos Batista. São 20 quartos alugados mensalmente a R$ 170 cada. O homem disse que, antes da denúncia, o dinheiro do aluguel era recolhido e entregue em um bar próximo do local. Mas agora há uma pessoa que faz o recolhimento pessoalmente, em nome de Batista.   Desde janeiro, o padre Júlio Lancellotti teria ficado desesperado com as contas e passou a pedir dinheiro emprestado a vários amigos. Ele teria afirmado que foi obrigado a comprar uma Mitsubishi Pajero em nome de Conceição Eletério, de 44 anos, mulher de Anderson Marcos Batista, de 26 anos, um ex-interno da Febem. "Ele (o padre) disse que está com os recursos (financeiros) exauridos", registra um depoimento à polícia prestado na segunda-feira.   Pessoas próximas ao padre Júlio teriam ficado preocupadas com o caso. O padre já disse não ter acesso às finanças do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto e informou que o dinheiro que financiou o carro é seu.   O religioso contou à polícia que vinha sendo extorquido havia três anos. Ao todo, teria dado R$ 80 mil. Foram R$ 30 mil só de entrada na Pajero, pagos à vista na concessionária André Ribeiro, no Shopping Aricanduva. A prestação é de R$ 2.012,92.   Como ex-funcionário da Febem, o padre tem vencimentos de R$ 2.330. Recebe ainda ajuda de custo mensal de R$ 1 mil da Paróquia São Miguel Arcanjo, e também R$ 1 mil da Casa Vida. Eventualmente recebe doações por casamentos e serviços religiosos. Procurado por telefone e também na Paróquia São Miguel Arcanjo, o sacerdote não foi localizado para comentar o caso.

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