Polêmica sobre estação de metrô ''assumiu tom de luta de classes''

Silvana Rubino, professora da Unicamp

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2011 | 00h00

A discussão em Higienópolis escapou dos trilhos da argumentação urbanística e atravessou para o campo da luta de classes, segundo Silvana Rubino, chefe do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Especializada em Antropologia Urbana, ela mora no bairro há quatro anos.

Como a senhora avalia a polêmica do metrô em Higienópolis?

Quando veio a notícia sobre a recusa da Associação Defenda Higienópolis há alguns meses, recebi o abaixo-assinado. Não levei a sério. Achei que era uma minoria do bairro. Não imaginava que fosse chegar a 3,5 mil assinaturas e, muito menos, que o governo fosse acatar o pedido desses moradores (O Metrô diz que decisão foi exclusivamente técnica).

E o que a senhora acha?

O argumento de que as estações seriam próximas é ruim, os moradores não têm condição técnica para discutir isso. Parece ter escapado à associação que metrô não é só para quem vive no bairro.

Os moradores não têm o direito de lutar pela preservação local?

Sim, é uma tentativa de apropriação do espaço. A questão é que, neste caso, o argumento de parte dos moradores envolveu a expressão "gente diferenciada". Foi um jeito infeliz de dizer que eles temiam que pobres invadissem a área. Nenhum bairro tem o direito de querer que pessoas passem ou não por ali.

Esse sentimento de apropriação do bairro pode ter lado positivo?

Claro. Se alguém decidir derrubar árvores da Praça Buenos Aires, é importante ter mobilização. Mas também precisa haver mobilização se decidirem colocar um portão que selecione quem entra.

Por que o episódio gerou tanta repercussão e agressividade?

Porque infelizmente ele assumiu tom de luta de classes. Vale questionar por que esse tom apareceu. Porque, na nossa cultura política, estamos acostumados a ver certas demandas serem atendidas e outras, não. Veja: 3,5 mil pessoas em São Paulo não representam quase nada. O que as pessoas questionam é se 3,5 mil assinaturas na Cidade Tiradentes teriam o mesmo impacto.

Pode haver racha entre grupos?

Já aconteceram manifestações graves e preconceituosas dos dois lados: uma postura higienista dessa minoria e até antissemitismo de poucos a favor do metrô. Pode haver a consequência de separar ainda mais. É aí que o governo não pode entrar na cilada. Ao ceder ao abaixo-assinado, confirma que só alguns têm voz. Mas é uma chance de o poder público dizer: "Sinto muito, o bem geral é mais importante."

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