PMs tinham tabela de propina para o tráfico

Um 'vapor' (entregador de drogas) era libertado por no mínimo R$ 500 e o 'chefe', por R$ 20 mil; se não pagavam, criminosos eram executados

PEDRO DANTAS / RIO, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2011 | 03h04

Uma operação da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio para combater o tráfico no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, revelou um esquema de extorsão a traficantes praticado por 22 policiais militares do 7.º Batalhão de Polícia Militar de São Gonçalo, cujos valores exigidos chegavam a R$ 20 mil.

Entre os mandados de prisão estavam os nomes dos cabos Carlos Adílio Maciel Santos e Jovanis Falcão Júnior, que já estão presos acusados de participação na execução da juíza Patrícia Acioli, morta na porta de casa com 21 tiros, no dia 11 de agosto deste ano. A investigação teve início em 2009 e a operação foi batizada de Martelo de Ferro, em homenagem à magistrada.

Dos 22 PMs acusados, 18 já estavam presos. Dois foram detidos ontem, um está foragido e outro morreu de causas naturais antes da operação. De acordo com a denúncia do MP do Rio, os policiais prendiam os traficantes, mas tinham uma tabela para a libertação dos criminosos. Um "vapor" (responsável pela entrega de drogas) era libertado por no mínimo R$ 500; o gerente do tráfico quando detido pagava entre R$ 2 mil e R$ 5 mil para não ficar na prisão. No caso do chefe do tráfico, a propina para a liberação poderia chegar a R$ 20 mil.

Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que os policiais militares Claudio de Souza Pereira e Adriano de Oliveira Luz cobraram R$ 10 mil para liberar o traficante Marcelo Rosa de Souza, o Rosão, no dia 21 de maio do ano passado. Após tensa negociação, os traficantes pagam R$ 5 mil, mas os PMs ainda levaram Rosão à delegacia.

Em 2009, o PM Jocely da Silva Pereira cobrou R$ 500 do traficante Marcelo da Silva Leitão, o Marcelo BG, para liberar um baile funk. Em outra gravação, o PM Geovane Gomes da Silva exige o mesmo valor do traficante Renato Muniz da Costa Freire, o Acanhado, para não reprimir a venda de entorpecentes durante o fim de semana e promete "segurar" o policiamento.

A PF ainda investiga uma das negociações por telefone para liberar um traficante, que terminou executado porque o resgate não foi pago aos policiais. O MP aponta que, quando contrariados, os policiais executavam os traficantes e registravam as mortes como "autos de resistência".

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