PMs também mataram homem julgado por facção

Policiais disseram que acusado por estupro em ‘tribunal’ do crime reagiu à abordagem e foi uma das vítimas em Várzea Paulista

William Cardoso - O Estado de S. Paulo,

12 Setembro 2012 | 22h30

SÃO PAULO - Os policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) afirmaram no boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Jundiaí que Maciel Santana da Silva, de 21 anos, reagiu e foi morto por eles na operação que terminou com outros oito mortos, terça-feira, 11, em uma chácara em Várzea Paulista, na região de Jundiaí. Silva era o homem julgado por estupro de uma menina de 12 anos e absolvido no suposto "tribunal do crime".

Segundo o boletim de ocorrência, Silva estava no primeiro carro abordado pelos policiais, um Pointer, ofereceu resistência e foi morto. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que, na ação da Rota, "quem não reagiu está vivo". "Você tem num carro quatro: dois morreram, dois estão vivos, se entregaram."

"Está claro nesse episódio que nós tínhamos um grande número de criminosos, com armamento extremamente pesado, participantes de uma facção criminosa, e a polícia surpreendeu todos eles", disse nesta quarta o governador, durante o início das obras do polo viário de Itaquera.

O pai de Silva, um serralheiro de 56 anos, disse, porém, que o filho não tinha envolvimento com nenhuma facção criminosa. Segundo a polícia, também não tinha antecedentes criminais. Na frente do Instituto Médico-Legal (IML) de Jundiaí, o pai disse que Silva tinha problemas psiquiátricos e era usuário de drogas. "Ele não tinha juízo. Ficava seis meses sem tomar banho, saía correndo pela rua. Foi internado três vezes, procurei psiquiatra, fiz tudo o que podia para ajudá-lo. Infelizmente, já esperava que um dia fosse acontecer alguma coisa assim."

Esclarecimento. A mãe da menina de 12 anos esclareceu na tarde desta quarta-feira, na frente da sua casa, no Jardim São José 1, em Campo Limpo Paulista, três pontos que, segundo ela, foram divulgados de forma equivocada pelo comando da PM após a operação em Várzea Paulista. A mulher, de 33 anos, disse que a filha não foi estuprada, mas que Silva teria tentado agarrá-la na rua, na semana passada, na frente de outras pessoas, que acabaram intervindo. A mãe da garota afirmou também que não foi o filho adolescente quem procurou os criminosos, mas que os suspeitos procuraram Silva por conta própria e acabaram levando-o para a chácara, para onde ela foi chamada para reconhecê-lo.

O acusado pelo "tribunal do crime" estava, segundo a mulher, sentado em uma cadeira e não foi agredido pelos demais suspeitos. Quando foi questionada pelos criminosos sobre que destino deveriam dar ao suspeito, ela foi enfática. "Falei que era para que ele continuasse vivo", explicou. Ela nega envolvimento com os integrantes da facção.

Segundo a mulher, Silva deixou a chácara vivo, no primeiro carro que partiu com os criminosos, e foi abordado pela Rota. Ela afirmou também que não viu o confronto e, quando contou o que havia acontecido aos policiais, ficou sentada no chão à espera do que seria feito.

Além de Silva, foram mortos durante a operação da Rota Anderson Ataíde Mariano, de 28 anos; Michael Ferreira Dias, de 21; Denilson Roberto Tiago, de 26; Marcos Alessandro Garcia Fernandes, de 56; Vitor Hugo de Souza, de 23; Cícero Rodrigo Raimundo, de 29; Iago Felipe de Andrade Lopes, de 20; e Valdir Félix de Abreu, de 35. Foram presos Alex Sandro de Almeida, Richard de Melo, Claudemir Aparecido Costa, Jeferson Willian Couto e Marcelo Amaral.

Nesta quarta-feira, 12, no IML de Jundiaí, parentes dos mortos reconheceram que alguns deles de fato faziam parte do PCC e fariam parte de um julgamento. A crítica se restringiu a como terminou a abordagem. A PM voltou a afirmar que a ação foi legítima. / COLABORARAM ARTUR RODRIGUES e MARCELO GODOY

Mais conteúdo sobre:
PMVárzea PaulistaRota

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.