''PMs mataram meu filho. Foi o que investiguei''

DEPOIMENTO - Cláudio Martins de Freitas, cujo filho morreu após roubar um carro

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2011 | 00h00

No dia 1.º de maio, o guarda-civil Claudio Martins de Freitas, de 50 anos, viveu uma tragédia. Os filhos Cleiton, de 21 anos, e Jefferson, de 18, roubaram um carro em Diadema. Cleiton foi preso pela Polícia Militar no Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Bernardo do Campo. Jefferson tentou fugir e acabou morrendo. Segundo a PM, Jefferson reagiu a tiros e por isso foi alvejado. O pai não acreditou nessa versão. Passou a investigar o crime por conta própria. Ele deu o seguinte depoimento ao Estado:

"Depois de 50 anos em Diadema, onde nasci e me criei, minha vida seguia nos eixos. Apesar das dificuldades financeiras, eu tinha um emprego estável e dois carros na garagem. Meus filhos pareciam encaminhados.

Cleiton, o primogênito, era professor de capoeira e trabalhava em uma empresa de segurança. Fumava maconha. Mas nunca teve problemas com a polícia. Do Jefferson, o mais novo, a gente esperava um futuro promissor. Trabalhava na empresa de segurança com o irmão e consertava computadores. Tentava uma bolsa para cursar Educação Física na Faculdade Anchieta. Acordava às 6 horas e fazia academia desde os 14 anos.

No dia 1.º de maio, tudo virou de ponta-cabeça. Meus filhos fizeram uma loucura e roubaram um carro. Eram 2 horas da tarde. Eles abordaram uma senhora aos gritos e levaram o Siena. Nada justifica a ação dos dois e eu defendia que eles pagassem com o rigor da lei. Só não admito o que aconteceu. O Jefferson foi executado pelos PMs. É a minha convicção desde que passei a investigar o caso por conta própria.

A PM os abordou e eles tentaram escapar, mas bateram o carro. Nessa hora, o Cleiton se entregou. Mesmo assim, tomou tiros. Um deles atingiu seus óculos, queimou a lateral da cabeça e feriu o dedão, o que mostra que estava com as mãos levantadas. Foi preso em seguida.

O Jefferson saiu correndo para uma rua próxima. Foi perseguido por uma viatura. Se escondeu na garagem de um sobrado, atrás de um carro. Um dos policiais gritou "sai ladrão, que a casa caiu". Saiu desarmado e tomou três tiros. Um na cabeça e dois no peito.

Desde que o crime aconteceu, eu me sinto desamparado. Quase nada avançou nas apurações da morte do Jefferson. Ele morreu às 4 da tarde. O DHPP (Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa) chegou às 8h20 da manhã seguinte. Até agora, eu não fui ouvido. Nem as testemunhas que eu encontrei.

O dono da casa onde o Jefferson se escondeu narrou que só ouviu tiros disparados pela PM. E que meu filho não atirou. Fui ao local, me apresentei a ele e expliquei a situação. O homem era evangélico e sugeriu que eu fosse fundo na investigação porque o Jefferson tinha sido executado. Eu sei que a vítima do roubo falou que meus filhos estavam armados. Mas ela só foi depor no dia seguinte. Daria tempo para forjar uma versão.

No Hospital Municipal de Diadema, uma atendente me contou que o policial chegou na recepção afirmando "esse aí não vai mais roubar ninguém" (a funcionária do hospital confirmou a história ao Estado). Ouvi também o passageiro do ônibus que viu a prisão do meu filho mais velho. Ele estava com a arma na cabeça, deitado no chão. O passageiro disse que os PMs apressavam o motorista para que ele avançasse o sinal vermelho. Talvez para que não houvesse testemunhas. Mas o motorista se recusou.

Eu ainda guardo o tênis e a camisa com o sangue do meu filho executado para o caso de ser necessário fazer alguma análise científica. Depois que passei a investigar o caso, comecei a receber recados e me sinto hoje ameaçado. Na Guarda Civil, me avisaram que um dos policiais envolvidos na execução teria me alertado para que eu parasse de circular pela casa dele. Eu nem sei onde ele mora. Acho que pode ser uma desculpa para me atacar. Acabei tendo de mudar de casa.

Meus filhos erraram. Também sou policial. Com certeza eles tinham de pagar. Mas o erro deles não justifica o da PM. Meu filho não reagiu e o policial deveria estar preparado para prendê-lo. Prezo pelo profissionalismo. Por isso, quero que haja uma boa investigação e seja feita Justiça."

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