'PMs do tráfico' teriam executado funkeiro

Corregedoria investiga 2 soldados e 1 cabo que fariam execuções a mando de criminosos, na Baixada Santista; entre as vítimas, MC Primo

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2012 | 03h02

A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo apresentou ontem três soldados suspeitos de participar de execuções na Baixada Santista a mando do tráfico de drogas. O órgão acredita ter evidências da participação dos policiais em pelo menos dois dos oito assassinatos que ocorreram no mês passado entre civis.

Segundo a Corregedoria, os envolvidos aproveitaram o assassinato de um PM do 39.º BPM, no dia 10, morto em princípio por questões pessoais, para simular vingança e confundir as autoridades, quando na verdade executariam os "devedores do tráfico".

Na mesma noite em que foi morto o PM, aconteceram outros três homicídios. Os assassinatos seguiam um mesmo padrão: foram praticados contra jovens, por volta da meia-noite, e sem vestígios de estojos da munição no local, o que demonstrava que se pretendeu alterar a cena do crime. Tudo apontava para vingança cometida por outros policiais.

Na semana passada, porém, em meio à onda de homicídios, uma testemunha deu uma guinada nas investigações. Ela contou que os PMs estariam agindo a mando dos fornecedores de droga da região, e identificou os responsáveis por dois assassinatos.

A testemunha contou que o soldado Edvaldo Leôncio Paulino, de 43 anos, há 15 na PM, e o cabo Gilberto Maciel, de 47 - 24 como policial -, mataram Caio Felipe Borges Filgueira, de 18, no dia 16, na zona noroeste de Santos. Na mesma noite, antes da chegada de outros policiais, eles teriam tentado matar outra pessoa que, mesmo baleada, sobreviveu. No local da execução, a polícia encontrou um estojo de pistola .40, com o número de um lote distribuído em 70 unidades da corporação, incluindo as da Baixada Santista.

MC. Entre os casos está a morte de Jadielson da Silva Almeida, o MC Primo, de 28 anos. O ídolo do funk de São Vicente foi morto em 19 de abril, quando chegava de carro em sua casa, no bairro do Jóquei Clube. Ele foi candidato a vereador em São Vicente pelo PSDB, em 2008.

A mesma testemunha que apontou os outros dois PMs como responsáveis pela morte de Filgueira disse que o soldado Anderson de Oliveira Freitas, de 29 anos, cinco deles na corporação, era carona em um Fiat Uno, e fez os primeiros disparos contra MC Primo. Os outros tiros foram dados em seguida pelo garupa de uma moto, que estava com uma máscara. A testemunha disse também que o soldado, assim como os demais presos, tinha relações com o tráfico.

A Corregedoria apurou ainda que traficantes estariam dispostos a pagar até R$ 5 mil para testemunhas falsas incriminarem policiais honestos, que não fazem parte do esquema criminoso. Segundo o órgão, os assassinatos cometidos agora não têm relação com as ondas de homicídios de 2010 e 2011, que também teriam a participação de PMs do grupo conhecido como Ninjas.

Porta-voz da Corregedoria, o major Levi Félix afirmou que não está descartada por completo a hipótese de vingança em algum dos outros seis assassinatos e de mais quatro tentativas de homicídio ocorridas em abril. As investigações continuam e outros policiais podem estar envolvidos nesses crimes.

Os PMs levados ontem para o Presídio Militar Romão Gomes têm no currículo casos de resistência seguida de morte. Mas, segundo a Corregedoria, nada que chamasse a atenção. Durante a prisão, ficaram em silêncio.

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