Tiago Queiroz/Estadão
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PM salva menina de alagamento para fazer hemodiálise: ‘Tem de escolher quem mais precisa’

Tenente Natália Giovanini, que pilota helicóptero Águia, e sargento Missael da Silva, da Polícia Militar, se juntaram aos bombeiros em resgate durante temporais que atingiram São Paulo

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 18h06
Atualizado 12 de fevereiro de 2020 | 20h49

Um idoso. Uma criança. Uma gestante. Um doente. Como escolher quem mais precisa de ajuda em uma enchente? Foi com controle emocional e treinamento técnico que Natália Giovanini, primeiro-tenente do Comando de Aviação da Polícia Militar de São Paulo, conseguiu resgatar, em um procedimento considerado ‘cirúrgico’, a garota Ana Clara, de quatro anos de idade, que ficou presa na Ponte da Freguesia do Ó, na zona norte da capital paulista, por causa dos alagamentos de segunda-feira, 10.

“Segunda foi um dia bem difícil na cidade, com vários pontos de alagamento, e quem conseguiu chegar no comando já foi assumindo as aeronaves", diz. Moradora do bairro de Santana, Natália optou por fazer o caminho até o Campo de Marte de bicicleta. Por conta do contato com a água da chuva, ela recebeu a orientação para tomar um antibiótico. Ao chegar ao aeroporto, encontrou o hangar alagado. “Então, algumas empresas disponibilizaram um espaço para que nossas aeronaves fizessem os pousos para reabastecer e continuar o trabalho de resgate”, conta. 

"Recebi um chamado referente a uma menina que estava ilhada na Ponte da Freguesia do Ó e que estava precisando ir para o hospital Samaritano fazer hemodiálise e ela não conseguiria chegar naquele dia”, lembra a tenente, que pilota o helicóptero Águia da PM há seis anos. 

A hemodiálise é um procedimento feito com uma máquina que limpa e filtra o sangue do paciente, ou seja, faz parte do trabalho que o rim doente não pode fazer. É indicado para pessoas com doença renal grave. “Com ajuda de um agente dos bombeiros conseguimos pousar na ponte e colocamos a garotinha na aeronave. Como piloto, tento descontrair, né? Ana Clara ficou bem sorridente. Ela e a mãe, acredito, ficaram aliviadas quando decolamos”, descreveu a tenente Natália. 

A Polícia Militar trabalhou com três aeronaves naquele dia e sete pessoas foram resgatadas, quatro com a ajuda de um cesto anexado ao helicóptero. “Numa situação como a de segunda-feira, a gente quer ajudar, mas precisa manter a calma e não se deixar envolver emocionalmente, senão, pode tomar alguma decisão equivocada. Com certeza a gente quer salvar todos, mas tem que escolher quem mais necessita. Além disso, observar a segurança. Não adianta colocar todo mundo e a aeronave não conseguir subir”, explica a tenente Natália, que participou de outros casos, como o de Brumadinho, em Minas Gerais, no ano passado.

Assim como ela, Missael da Silva, 3.º sargento do 4.º Batalhão da Polícia Militar Metropolitana (BPMM), atuou como um reforço da equipe de bombeiros de São Paulo. No período da tarde, o sargento foi abordado por uma mulher na rua Doze de Outubro, próximo a avenida Marquês de São Vicente. A irmã dela, o cunhado e a filha de apenas dois anos estavam no andar de cima de um sobrado. A cozinha, com todos os alimentos, foi tomada pelas águas e a criança estava sem comer há horas.

“Essa senhora disse que ligou para os bombeiros, pediu socorro, mas disseram que a prioridade era para quem estava em alto risco de vida. Além disso, todas as viaturas estavam atendendo chamados. Eu tenho uma filha de cinco anos e um bebê de sete meses. E aquilo me tocou muito. Pensei em entrar na água, ir nadando e pegar a menina pelo ombro”, relatou o sargento. Nesse momento, Missael se deparou com uma viatura do Corpo de Bombeiros, que disponibilizou um bote para chegar até a casa da família. 

Mais cedo, pela manhã, o sargento e a equipe que comanda - composta pelos soldados Bottura, Augusto e Telhada - participaram do salvamento de 30 pessoas que ficaram ilhadas em um ônibus na pista expressa da Marginal do Tietê. “A gente estava na base comunitária, tentando acessar a Ponte do Piqueri para poder reprimir arrastão aos carros parados. Aí, visualizamos um ônibus de viagem que estava ilhado havia umas seis horas. Eram idosos, adultos e jovens - umas 30 pessoas. Nós conseguimos levar o pessoal para a estação da Lapa, mas o motorista ficou porque disse que não poderia abandonar o veículo”, disse. 

O pai de Missael é bombeiro aposentado no Rio Grande do Sul, na cidade de Passo Fundo. Ao ouvir as histórias de salvamento durante a infância, se apaixonou pela carreira. “Vim para São Paulo, entrei na corporação e me encantou o fato de poder fazer alguma coisa pela população. Nossa farda é um sacerdócio. Não é para qualquer um, tem que gostar. Você não vai ganhar ‘rios de dinheiro’, mas é muito bom poder fazer algo pelas pessoas”, concluiu o sargento.   

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