EFE/SEBASTIÃO MOREIRA
EFE/SEBASTIÃO MOREIRA

PM preso acusado de chacina é suspeito de integrar grupo de extermínio

Soldado Fabrício Emmanuel Eleutério nega, mas foi reconhecido por testemunha e já responde a cinco processos

Alexandre Hisayasu, Marcelo Godoy e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

25 de agosto de 2015 | 03h00

O soldado Fabrício Emmanuel Eleutério, integrante das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), está preso administrativamente sob suspeita de envolvimento na chacina de Osasco e Barueri, que deixou 18 mortos. O PM foi reconhecido por uma fotografia mostrada a uma testemunha, que o identificou como autor do disparo que feriu uma pessoa na Rua Suzano, no bairro Vila Menck, em Osasco, um dos dez pontos de ataque. Ele é o primeiro suspeito detido nas investigações do caso.

Eleutério, que nega envolvimento na chacina, responde a cinco processos no Estado e já havia sido preso em abril de 2013 sob suspeita de integrar um grupo de extermínio. Antes da prisão, atuava na área administrativa da corporação e era obrigado a cumprir medidas restritivas: permanecer em casa durante os fins de semana, não se ausentar de Osasco sem prévia autorização da Justiça, não frequentar bares e boates e também não se aproximar de testemunhas dos processos.

O ataque na Rua Suzano ocorreu às 22 horas do dia 13, deixou dois feridos e foi o sétimo da chacina. A força-tarefa que apura as mortes acredita que os homicídios foram praticados por três grupos, ligados entre si.

O soldado prestou depoimento ao capitão Rodrigo Elias da Silva, da Corregedoria, na sexta-feira e disse que na noite dos crimes estava na casa da namorada, onde comeram pizza e assistiram a um filme. Soube por WhatsApp que ataques haviam ocorrido em Osasco e, posteriormente, seguiu para sua casa. Além da namorada, segundo ele, a sogra, a diarista da casa e o motoboy que levou a pizza o viram na noite dos crimes. Ele não se recordou do nome da pizzaria onde pediu a refeição. 

Eleutério negou conhecer o cabo Avenilson Pereira de Oliveira, vítima de latrocínio em um posto de combustível de Osasco. Uma das linhas de investigação é a de que a chacina seria um ato de vingança de colegas de Oliveira, após a morte do policial.

Durante o depoimento, o soldado da Rota liberou acesso a sua conta Google e aos dados do celular. Questionado se tinha arma particular, disse que sim. “Pistola Glock, calibre 380, que se encontra apreendida no Fórum de Carapicuíba.”

Além de prendê-lo, a Corregedoria pediu à Justiça Militar a expedição de mandado de busca e apreensão na residência do policial e de outros 17 PMs, além de um civil. 

Risadas. A investigação da Corregedoria ouviu até o fim da semana passada 54 policiais militares da Força Tática, da 1.ª e da 2.ª Companhia do 42.º Batalhão, além de sobreviventes do ataque. Em depoimento, uma pessoa que testemunhou a morte de Rafael Nunes de Oliveira, na Rua Moacir Sales D’Ávila, em Osasco, disse ter visto uma viatura acompanhando o veículo de cor prata, que transportava criminosos. Os policiais estariam dando risadas. 

Outra testemunha acrescentou que PMs voltaram à cena dos crimes para recolher cápsulas da munição usada. Outro fato suspeito levantado pela Corregedoria é que homens da tropa de elite do batalhão de Osasco foram dispensados do serviço às 23 horas, mesmo diante de várias ocorrências com morte. 

O órgão acrescentou que é de praxe acionar PMs de folga em situações adversas, mas não foi isso que ocorreu naquela oportunidade. Em depoimento, um sargento, um cabo e cinco soldados afirmaram que foram liberados normalmente e se deslocaram para um mesmo bar no Parque São Domingos, zona norte da capital. Todos os sete tiveram residências vasculhadas na semana passada.

Dos 54 PMs ouvidos, ao menos 32 estavam trabalhando na noite do crime. Eles foram convocados a prestar esclarecimentos na sede da Corregedoria, no início da semana passada. Nos dias seguintes, outras suspeitas surgiram: a força-tarefa tentava identificar PMs que, segundo denúncias de testemunhas, passaram em biqueiras na periferia de Osasco para recuperar a arma roubada do cabo Oliveira, antes dos ataques.

De acordo com as denúncias, os policiais teriam cobrado a pistola .40, que pertencia ao cabo e é de uso restrito da corporação. Houve ameaças caso a arma não aparecesse. A pistola não foi recuperada.

Um mês antes da chacina. A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo investiga outros policiais suspeitos de ocultarem uma apreensão de droga e agredirem uma das vítimas da chacina de Osasco e Barueri – um mês antes de a série de mortes acontecer. Rafael Nunes de Oliveira, de 23 anos, foi abordado por uma guarnição do 42.º Batalhão, cujos integrantes ameaçaram “raspar” com uma faca a tatuagem que a vítima tinha na barriga. As informações dão base a um dos pedidos de busca e apreensão elaborados pela Corregedoria e deferido pela Justiça Militar. 

Rafael Nunes de Oliveira foi morto às 21h30 do dia 13 de agosto na Rua Moacir Sales D’Ávila, no bairro Vila Menck, em Osasco. A vítima estava na calçada, acompanhada por duas pessoas, quando ocupantes de um carro pararam próximo do grupo e atiraram. Rafael morreu no local e outra pessoa ficou ferida. A perícia apontou que a munição calibre 9 mm, de uso restrito da Polícia Federal e das Forças Armadas, foi usada no ataque. 

Um mês antes da chacina, Oliveira tivera seu veículo apreendido por PMs. Na oportunidade, a vítima estaria portando droga, que teria sido guardada por um dos policiais na viatura. Não foi revelada a quantidade nem o tipo. A Corregedoria confirmou que a ocorrência da apreensão do carro existiu e dela participaram um sargento e três soldados.

Busca. Uma testemunha relatou também que, em outra ocasião, Oliveira foi agredido por PMs, e um deles pediu uma faca para raspar a tatuagem que a vítima tinha na barriga. Outro soldado, que não participou da primeira abordagem, foi reconhecido por uma fotografia.

Os policiais militares envolvidos nessas ocorrências tiveram as residências vasculhadas por investigadores, que recolheram documentos e celulares no fim da semana passada. 

Força-tarefa. Desde o dia seguinte à chacina, a força-tarefa envolvendo departamentos da Polícia Civil e a Corregedoria da Polícia Militar trabalha com quatro hipóteses em relação aos ataques – em três delas, agentes de segurança pública, como os PMs e os guardas-civis de Osasco e Barueri, são protagonistas. A quarta possibilidade é que as mortes tenham sido motivadas por brigas entre traficantes de droga. Nenhuma das linhas foi descartada. 

“Assim que tivermos a certeza de exclusão de alguma linha, nós vamos excluir”, afirmou o secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes. Ele negou que a Corregedoria esteja sonegando informações ao DHPP. “Não há nenhuma cisão, nenhuma confusão entre as polícias.”

A advogada Flavia Magalhães Artilheiro, defensora do PM Fabrício Emmanuel Eleutério, afirmou que iria avaliar com sua equipe “a conveniência” de falar com a imprensa sobre a defesa do policial preso. Ela não quis fazer mais comentários sobre o caso. 

Sobre as acusações anteriores citadas pelo próprio PM em seu depoimento à Corregedoria, de participação em grupos de extermínio, Flavia limitou-se a dizer que eram procedimentos “sigilosos”. E, por isso, também não faria comentários. / COLABORARAM RAFAEL ITALIANI e BRUNO RIBEIRO

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